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Os donos da notícia

04/11/2026

  

Os donos da notícia

Quem define o que chega ao conhecimento da sociedade? Que interesses estão por trás das notícias que consumimos diariamente? E o que acontece quando aquilo que não é mostrado, mencionado ou debatido se torna tão importante quanto a própria notícia?

Redação ABCP

Essas são algumas das questões que orientam Os donos da notícia, obra que investiga o papel do telejornal de maior audiência do Brasil na construção do imaginário social e na legitimação de determinados interesses econômicos e políticos. E para que o livro chegue ao público em geral precisamos garantir sua edição, por isso, como não somos grandes grupos econômicos, estamos fazendo uma campanha de pré-financiamento que você pode ajudar contribuindo e compartilhando (o link está ao final desta matéria).

É preciso fazer a reflexão sobre o poder da informação numa sociedade sempre em disputa, como a nossa. Quem tem o “poder” econômico de ter grandes emissoras de televisão também tem o poder de fazer circular massivamente a notícia ou o recorte da realidade que melhor lhe interessa.

E nós, sociedade, qual o nosso poder nessa história? Temos uma TV Globo nas mãos para falar sobre a nossa vida de verdade, sem cortes, sem filtros, sem manipulação? Podemos mostrar o outro lado da notícia que não interessa aos especuladores da Faria Lima, os defensores do ajuste fiscal (corte de recursos) em cima de políticas públicas e sociais? Conseguimos dois minutos, ou até segundos, no Jornal Nacional, em 2017, para falarmos sobre os malefícios da reforma trabalhista?

A pesquisa foi realizada durante quase cinco anos junto ao Instituto de Economia da Unicamp, convergindo os saberes de Economia e de Comunicação.

As edições do telejornal de maior audiência, no país, foram transcritas, minutadas e analisadas de dezembro de 2016 a julho de 2017. O levantamento minucioso demonstra quem apareceu e quem foi “desaparecido”, o que se falou, como se enquadrou os críticos às mudanças. A pesquisa examinou especialmente as estratégias discursivas e os silenciamentos presentes na construção da narrativa jornalística.

A “notícia” que se revela com a investigação não é a que foi ao ar.

A pesquisa permite, ainda, olhar com mais cuidado a ideia de jornalismo profissional em contraponto às fake news. Nesse sentido, uma análise historicamente rigorosa deve separar quatro fenômenos: cobertura crítica, quando fatos negativos e relevantes são noticiados; viés editorial, quando seleção, destaque ou linguagem favorecem sistematicamente um lado; erro jornalístico, quando informação ou edição produz resultado inadequado, com ou sem intenção; e desinformação, quando uma alegação falsa ou enganosa é produzida ou difundida de modo demonstrável.

O livro joga luz no debate necessário e urgente sobre como o telejornalismo hegemônico (ou aquele que está nas mãos de grandes grupos econômicos) pode influenciar a percepção da realidade, estabelecer consensos e silenciar perspectivas divergentes. Isso acontece todos os dias. A mídia hegemônica não para. A eleição presidencial de 2026 é emblemática para reforçar a urgência de refletirmos sobre o que realmente é notícia, informação e jornalismo profissional.

Mais do que analisar o conteúdo veiculado, a obra chama a atenção para a força daquilo que não é dito. Afinal, compreender a comunicação também significa investigar ausências, escolhas editoriais e interesses que atravessam a produção das notícias.

No Brasil, a pluralidade informativa encontra-se comprometida por uma estrutura de comunicação de massa marcada pela concentração dos principais grupos midiáticos nas mãos de menos de dez famílias, pela propriedade cruzada dos meios de comunicação e pelos elevados custos operacionais do setor. Soma-se a esse cenário a concentração de parcela expressiva dos recursos públicos de publicidade nas emissoras pertencentes aos grandes conglomerados e o controle de grupos regionais por políticos que, frequentemente, atuam como (re)transmissores dos conteúdos produzidos pelas redes nacionais. Como observam Mielli e Damasceno (2015, p. 34), “Através deste oligopólio eles controlam a informação que chega aos cerca de 200 milhões de brasileiros e impedem que vozes dissonantes ganhem maior repercussão”.

Participe da campanha
A publicação de Os donos da notícia representa uma contribuição ao debate público sobre comunicação, democracia, liberdade de expressão e concentração dos meios de comunicação. Em uma sociedade marcada pela circulação acelerada de informações e pela disputa de narrativas, compreender como as notícias são produzidas e quais interesses podem orientar sua construção é fundamental para o exercício da cidadania.

A democratização da informação também passa pela possibilidade de compreender criticamente quem produz as notícias, quais interesses elas representam e quais vozes permanecem fora do enquadramento.

Para tornar essa publicação possível, estamos promovendo uma campanha de financiamento coletivo pela plataforma Benfeitoria.

Link da campanha: https://benfeitoria.com/projeto/nos-bastidores-do-poder-conheca-os-donos-da-noticia-28tl

Sobre a autora
Rosângela Ribeiro Gil é jornalista. Há 40 anos na profissão, boa parte dedicados à imprensa sindical. A obra é resultado de pesquisa desenvolvida ao longo de quase cinco anos, durante mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), período em que reuniu os saberes da Comunicação e da Economia para investigar o discurso telejornalístico sobre a reforma trabalhista neoliberal de 2017.

Referências
MIELLI, Renata; DAMASCENO, Fernando. Combate ao monopólio midiático: entre a retórica e as ações concretas. In: MIELLI, Renata (org.). Direitos negados: um retrato da luta pela democratização da comunicação. São Paulo: Barão de Itararé, 2015, p. 33-41.