NOTÍCIAS
Redação ABCP
Artigo da jornalissta Cidinha Santos
Julho não é apenas o mês no calendário; é o lembrete do tempo que teima em brotar. No dia 27 de julho, o sol ilumina a memória de Marielle Franco. Se estivesse física e presencialmente entre nós, o dia seria de festa, riso largo, abraços apertados e a celebração de mais um ano que celebra a mulher negra que ousou ocupar os espaços que a estrutura insistia em nos negar.
Mas a história tomou outro rumo naquela noite de março. Queriam silenciá-la. Queriam interromper a caminhada da mulher que carregava na pele a cor da ancestralidade e na voz o eco da favela, do feminismo negro e do poder popular. O que os algozes não previram é que mulheres negras não são apagadas — são plantadas.
Arrancaram o corpo, mas esqueceram da raiz. Pensaram que era fim, mas o sangue regou o país. Cada bala que tentou calar o teu peito fez nascer no nosso o mesmo direito: o de existir, lutar e ser feliz.
O assassinato de Marielle foi um golpe profundo na nossa democracia e na nossa carne. Como mulher negra e feminista, sinto esse impacto no cotidiano. A dor foi gigante, mas a resposta precisava ser maior. O projeto de apagamento falhou miseravelmente porque transformamos o luto em luta.
Nos anos que se seguiram à violência de sua partida, vimos erguer-se uma onda sem precedentes. A impunidade, que por tanto tempo alimentou as engrenagens da violência política e racial neste país, encontrou barreira firme: a nossa insurgência organizativa. A cobrança por justiça por Marielle e Anderson tornou-se o farol que escancarou as estruturas do poder e exigiu respostas que o Brasil devia a si mesmo.
O fortalecimento das mulheres negras no pós-Marielle não é metáfora; é dado da realidade. Vimos uma ocupação sem volta na política institucional, nos movimentos sociais, na academia e nas artes. Vimos bancadas feministas negras se multiplicarem, lideranças comunitárias se fortalecerem e jovens periféricas assumirem sem medo o legado de quem veio antes. Marielle virou verbo. Mariellamos.
Nós somos o pesadelo dos que nos querem no chão, a continuidade de Dandara, a força da tua voz no plenário e na multidão. Não há silêncio que nos couber, somos a tempestade que a justiça quer.
Celebrar o aniversário de Marielle Franco hoje é reafirmar nosso compromisso histórico. É dizer ao Estado e à sociedade que não aceitaremos mais a violência política de raça e gênero, que o corpo negro não é alvo descartável e que a impunidade não terá mais endereço fixo.
Marielle vive. Ela vive na garganta que grita por direitos, nas leis aprovadas por mãos negras, na proteção às nossas comunidades e no amor que devotamos umas às outras enquanto construímos o amanhã. Neste julho, não choramos apenas pelo que nos tiraram: celebramos a potência do que ela foi e a força invencível do que nos tornamos.