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O desprezo das big techs pela civilização

23/06/2026

  

O desprezo das big techs pela civilização

Empresas estão alinhadas a projetos de governos bélicos de extrema-direita, como Estados Unidos e Israel

Rosângela Ribeiro Gil
Redação da ABCP
Ilstração reproduzida a partir do site Intervozes

Jeff Bezos, dono da Amazon, foi envolvido em controvérsia, nos últimos dias. Atribui-se a ele, declaração desqualificando a prioridade do consumo humano de água e colocando em primeiro lugar a utilização da água para as máquinas dos data centers. O fato teria ocorrido na 10ª VivaTech 2026, entre os dias 17 e 20 de junho, em Paris. Verdadeira ou não, o empresário estadunidense tem perfil bastante polêmico e não se posiciona a favor de pautas sociais e populares no próprio país e no mundo. Podemos começar por lembrar que ele se alinha a governos autoritários, tiranos e bélicos, como o de Trump, dos Estados Unidos. Também se sabe que pesa sobre ele denúncias graves de superexploração de trabalhadores na Amazon e manobras agressivas (como demissão e perseguição) para evitar a sindicalização. O rol é grande, mas vamos destacar, ainda, baixa tributação proporcional sobre sua fortuna e fracassos em grandes investimentos empresariais.

Union
Sobre práticas antissindicais vale assistir ao documentário
Union (2023) que aborda diretamente a luta e a organização do primeiro sindicato de trabalhadores da Amazon em Staten Island, Nova York, desafiando a corporação por melhores condições de trabalho.

Mas a polêmica da água surge do nada? Você sabe como as máquinas de processamento de dados, ou a Inteligência Artificial (IA), funcionam? Nas nuvens? Com certeza não. As máquinas ficam em terra firme e drenam à exaustão o meio ambiente. Portanto, conhecendo minimamente a trajetória dos “líderes” das maiores empresas de tecnologia do mundo, chamadas big techs e “sete magníficas” do mercado norte-americano [confira quadro nesta matéria] podemos chegar ao entendimento de que o capitalismo energético e o colonialismo digital não teriam pudor de tirar água potável da boca de humanos para colocar nas máquinas.

Modelo de negócio agressivo ao meio ambiente

Para compreender melhor o falso discurso de que tudo está na nuvem (cloud) ou de que o processo das big techs é limpo, a Redação da ABCP entrevistou o professor Sérgio Amadeu, da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Sérgio Amadeu
É graduado em Ciências Sociais (1989), mestre (2000) e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2005). É professor associado da Universidade Federal do ABC (UFABC). É membro do Comitê Científico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber) e membro do Conselho Diretor da Internet no Brasil. Suas pesquisas abrangem as implicações tecnopolíticas de sistemas algorítmicos; a relação entre comunicação e tecnologia; sociedades de controle e privacidade; e práticas colaborativas na internet.

Inicialmente, Amadeu observa que o modelo de negócios construído pelas big techs em torno da inteligência artificial é de hiperescala, “ele consome muito poder computacional e muita água para refrigerar as grandes estruturas de armazenamento e processamento de dados”. Para ele, não é surpresa posição vinda dos líderes do grupo diminuto de big techs, que comanda a ciência no que se refere à chamada inteligência artificial – que são sistemas automatizados baseados em dados –, “porque eles têm desprezo por questões concretas da humanidade. Nós vivemos mais do que uma emergência global, a questão ambiental não é qualquer questão, ela é crucial para toda a nossa sobrevivência, para a manutenção dos ecossistemas que conhecemos hoje”.

Para o professor da UFABC, os CEOs dessas empresas “têm uma visão completamente alucinada de que a tecnologia pode fazer qualquer coisa diante da natureza, e nós sabemos que não pode. Eles se colocam numa postura de praticamente criadores do universo, e eles não são. Então, cabe à sociedade regular a inteligência artificial e essas grandes corporações”.

Sérgio Amadeu é categórico ao afirmar não ser possível aceitar os abusos, incongruências, incoerências praticadas em nome de um lucro absurdo que essas empresas perfazem. “O que Jeff Bezos consolida nada mais é do que uma doutrina supremacista que comanda essas corporações e mediam relações humanas em todos os continentes. O tema é extremamente preocupante”, alerta.

Não importa se verdadeira ou falsa declaração atribuída a Jeff Bezos de que a água para a inteligência artificial deve ter prioridade em detrimento do consumo humano, “porque eles criaram um modelo de hiperescala altamente consumidor de recursos ambientais. No afã de ter mais sucesso do que o outro, esses oligopólios criam estruturas cada vez mais monstruosas e destruidoras do meio ambiente”, observa Amadeu.

A utilização da água
Sérgio Amadeu explica que a água é fundamental no processo de resfriamento dos computadores, dos servidores que estão dentro dessas grandes estruturas cada vez maiores, que concentram milhares e milhares de placas de auto processamento de dados. “Em geral, um data center usa 40% da energia para poder processar os dados, outros 40% para refrigerar essas máquinas processadoras de dados. Repare que, se ele não usar água, ele vai usar mais energia ainda para refrigerar, o que vai gerar também um mega impacto ambiental a depender de qual a fonte dessa energia”, explana.

Ele continua: “A água, portanto, está sendo um grande problema para as comunidades que têm suas fontes, vamos dizer, atacadas por megaempresas que extraem água de um lugar que não tem tanta capacidade de gerar água. Mas existem cada vez mais tecnologias para reduzir o consumo de água, mas não importa, olha que loucura, porque o número de data centers que estão construindo é extremamente exagerado. Então, nós estamos vivendo uma situação em que as próprias placas de auto processamento estão com uma eficiência energética cada vez maior, ou seja, consome menos energia para cada vez mais processamento, mas o fato é que, no global, nós estamos vendo um aumento do gasto de energia e do gasto de água.”

O mundo contemporâneo, conforme Amadeu, (re)vive o paradoxo de Jevons que foi conhecido com o carvão, no século XIX. Ele descreve: “Como o carvão era mais barato, todo mundo começou a ampliar a extração de carvão. Então, está acontecendo com a energia elétrica, com a água, esse mesmo problema. Os aparelhos estão cada vez mais eficientes, os computadores, as placas de processamento, mas o investimento nesse tipo de tecnologia está crescendo, e isso está gerando, portanto, um gasto absurdo, exagerado, insustentável.”

Paradoxo de Jevons
Princípio econômico que afirma que o aumento na eficiência do uso de um recurso pode levar ao aumento, e não à diminuição, do seu consumo total. Isso ocorre porque a maior eficiência reduz os custos, estimulando maior demanda e novas aplicações para o recurso.

O professor defende a revisão urgente do modo como se utiliza esses sistemas automatizados. “Não existe uma única forma de extrair padrões, de criar soluções automatizadas, mas essas big techs estão no comando dessa tecnologia, e, portanto, para elas interessam estruturas de hiperescala. Por quê? Porque isso cria uma barreira à entrada para quem quiser competir e solucionar problemas de um outro modo.”

Barreiras à entrada
É um termo econômico que significa obstáculos, custos ou condições que dificultam ou impedem que novas empresas comecem a atuar em um determinado mercado ou setor. Por protegerem as companhias já estabelecidas contra novos concorrentes, essas limitações exercem um papel fundamental na manutenção de lucros e no poder de mercado de grandes empresas.

De mãos dadas com a guerra
Amadeu observa que a Amazon, a Palantir, a Microsoft, o Google e o Grupo Meta fazem parte do complexo militar-industrial norte-americano que depende, cada vez mais, de dados para promover a guerra. Se tem o uso intensivo “de sistemas logísticos que integram informações de satélites, de drones, de aviões, de navios, de dispositivos no solo e nos uniformes dos soldados. Há um tratamento de dados que fez com que essas corporações de processamento de dados, se tornem elementos indispensáveis para o complexo militar dos Estados Unidos. Elas são empresas comprometidas com o massacre na Faixa de Gaza e outras guerras e conflitos que estão acontecendo no mundo. Não podemos vê-las como empresas neutras ou apenas com foco comercial. Não, elas são hoje principais instrumentos geopolíticos da extrema-direita norte-americana que dominam o Estado daquele país”.

Soberania digital
Diante da pergunta da Redação da ABCP sobre a civilização estar frente a dilemas fundamentais para a sua própria sobrevivência, como as lutas contra o capitalismo energético e o colonialismo digital, o professor Sérgio Amadeu responde: “Sem dúvida, a luta contra o colonialismo digital passa pela soberania digital e pela soberania de dados.”

Para ele, é crucial tirar ou romper o fluxo de dados do Sul Global para essas empresas, “só desta forma conseguiremos democratizar o poder de processamento, democratizar o controle dos dados. Democratizar, portanto, os ganhos que esses dados estão dando para empresas que se concentram no Norte”.

Sul Global e Norte Global
É um conceito geopolítico e socioeconômico que agrupa nações em desenvolvimento, muitas vezes localizadas na América Latina, África, Ásia e Oceania. O termo substitui designações antigas como "Terceiro Mundo" e foca em regiões com histórias compartilhadas de colonialismo e desafios com desigualdade econômica.
Já o termo Norte Global refere-se ao conjunto de nações desenvolvidas, industrializadas e com alto padrão de vida, independentemente de sua localização geográfica real. Ele concentra a maior parte da renda, tecnologia de ponta e influência sobre as instituições financeiras internacionais, contrastando diretamente com o Sul Global.

Amadeu classifica a soberania digital e de dados como indispensável à existência de um desenvolvimento econômico distribuído no planeta e também contra os projetos autoritários das big techs “que, insisto, não são mais empresas quaisquer, são instrumentos do poder geopolítico, portanto, global, dos Estados Unidos”. Segundo ele, é preciso ter conhecimento dessa questão para que “passemos a construir infraestruturas federadas, distribuídas, de baixo impacto ambiental para criar sistemas automatizados para manter os dados em nosso país e democratizar o controle dos empreendimentos para vários agentes, evitando uma concentração de capital que faça com que essas empresas se tornarem descomunais e cada vez mais autoritárias”.

Batalha não está perdida
Sérgio Amadeu observa que não estamos numa batalha perdida. A saída é mudar a política tecnológica do país e ajudar a replicar o cenário no Sul Global. Ele defende: “Temos um sistema universitário que poucos países do mundo têm. Temos capacidade de desenvolvimento tecnológico. Temos, olha só, empresas públicas de processamento de dados, mas que foram desvirtuadas. Temos uma comunidade de engenharia gigantesca, do tamanho da iraniana ou da alemã. Temos capacidade de desenvolver tecnologia se a gente mudar a política de submissão.”

Ele lembra que a política atual hegemoniza a gestão pública brasileira e foi consolidada pelo Fernando Henrique Cardoso com a seguinte ideia de subordinação de que “podemos ser modernos sendo dependentes”. Como argumenta Amadeu, a ideia já era discutível na época dele (FHC), “hoje está mais do que claro que não podemos nem devemos continuar essa dependência absurda que a gente tem, por exemplo, dos Estados Unidos. Se ficarmos nessa dependência não temos condição de ter o mínimo de soberania nacional”.

Teoria da Dependência
Para Fernando Henrique Cardoso (FHC), o "desenvolvimento dependente e associado" não impede a modernização; na verdade, eles argumentavam que a economia capitalista globalizada permite que países periféricos se modernizem e se industrializem, mesmo mantendo laços de subordinação financeira e tecnológica aos países desenvolvidos.

Amadeu destaca que as tecnologias digitais são fundamentais, no mundo contemporâneo, para a manutenção do Estado democrático e da comunicação livre e nacional, “para que a gente possa desenvolver soluções que sejam controladas pela nossa inteligência coletiva nacional”. E acrescenta: “Do ponto de vista econômico também, quanto mais usarmos as tecnologias digitais, os provimentos de nuvem dessas empresas americanas, menos recursos vamos ter no Brasil e mais a gente vai degradar o meio ambiente para exportar soja e comprar a tecnologia deles. É fundamental romper esse ciclo de subordinação consolidado pelo Fernando Henrique Cardoso.”

Sérgio Amadeu finaliza com otimismo: “Não estamos perdidos. Temos condições e capacidade criativa, inventiva. No passado, petrolíferas britânicas acompanharam os primeiros passos da exploração do petróleo em solo brasileiro, hoje o Brasil é o principal explorador de petróleo em águas profundas. Temos uma empresa de viação que é a terceira maior do mundo. Temos soluções extremamente ousadas em várias áreas da ciência. Só precisamos de uma política tecnológica à altura da capacidade brasileira para conquistarmos soberania digital e de dados.”