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A celebração da resistência feminista na Realejo Livros

26/08/2026

  

A celebração da resistência feminista na Realejo Livros

Não é pelo banco, é pela vida.

Por Cidinha Santos, jornalista
Artigo publicado no site Os inconfidentes

A curiosidade que agitou a rua desde a última sexta-feira transformou a esquina mais frequentada da cidade em um marco histórico de afeto, coragem e união. No sábado de inauguração, o novo parklet e seu Banco Vermelho deixaram nítido que não se trata apenas de uma estrutura física: o banco é uma ferramenta viva de mobilização, apoio e esperança.

Em uma região que tristemente convive com a marca de um feminicídio por semana, a Realejo Livros, em parceria com o Coletivo Feminista Classista Maria Vai com as Outras, ocupou o espaço urbano para mudar também a forma como essa história é contada. Após 50 dias de mobilização, a violência deixou de aparecer somente pela notícia das mortes e passou a ser narrada também pela resistência construída em torno da campanha.

A celebração marcou também um momento especial para a Realejo, que celebra 25 anos de livraria e 20 anos de editora. Nas falas de abertura, José Luiz Tahan, Cidinha Santos e Leila Kesseler destacaram a relevância da campanha pública iniciada em 15 de junho, que levou o debate para além dos índices de mortalidade. Em um gesto de profunda gratidão à comunidade, o evento femenageou e premiou Solange Savazoni, a primeira doadora da campanha, além de sortear presentes para o público presente.

O próprio banco traz em suas laterais o chamado direto para a transformação, estampado com os dizeres "Lutamos pelo Feminicídio Zero!", "Sentar e refletir. Levantar e Agir", além do QR Code e o canal do Ligue 180 para denúncias e acolhimento. As frases gravadas ao vivo pela artista Michele Rocha completam esse manifesto coletivo:

•      Marcia Tiburi: A filósofa, escritora e madrinha do banco acompanhou a pintura de sua frase "O feminismo é o contrário da solidão". Ela também apresentou sua obra mais recente, “Ninfa Morta: uma história do ódio às mulheres”, fruto de uma trajetória de duas décadas de pesquisa e escrita. Durante quatro horas, cerca de 100 pessoas aguardaram com carinho na fila para garantir seu autógrafo, conversar e registrar o momento em fotos com a autora.

•      Adriana Carranca: A jornalista e escritora santista, atualmente morando nos Estados Unidos, foi eternizada com "Ser mulher é resistir para existir", sob o olhar emocionado de sua mãe e irmã presentes na celebração.

•      Eliane Alves Cruz: A autora teve sua mensagem gravada em frente à livraria: "A vida é o desejo mais ardente de todas as mulheres". A escritora não esteve no evento, pois está numa maratona de lançamento de suas publicações.

A arte e a escuta pautaram o dia. O público comemorou a presença vibrante do Coletivo Feminista Classista Maria Vai com as Outras, idealizador da parceria com a livraria de rua e o engajamento de profissionais liberais e grupos como o Linhas de Santos, que já tem atividades agendadas para ocupar o espaço com apoio e denúncia.

A trilha sonora amplificou a emoção do evento. O Grupo Vozes do Sindicato dos Bancários de Santos, sob a regência de Simone Schumacher, foi calorosamente aplaudido ao interpretar hinos como "Triste, louca ou má" (Francisco el Hombre e Juliana Strassacapa), "Salve Todas" (Antonia Medeiros), "Caminho das Águas" (Rodrigo Maranhão), "Costura da Vida" (Sergio Pererê) e "Envelhecer é uma arte" (Adoniran Barbosa). Para fechar a noite, o Choro de Bolso, com Débora Gozzoli e Marcos Canduta, trouxe o repertório tradicional que faz parte da própria história da Realejo.

Um espaço com tantas madrinhas e redes de apoio carrega a certeza de que a luta pela dignidade feminista não é isolada. O processo coletivo de construção desse parklet-banco vermelho prova que cada pessoa que estendeu a mão deixou um pedaço de si nessa esquina. É na ocupação do espaço público, na palavra dita e no acolhimento mútuo que se constrói o futuro.

Um agradecimento especial à designer gráfica e multiartista Márcia Okida!