NOTÍCIAS
Na luta pelo teletrabalho mais digno, categoria avança na conscientização da importância da ação coletiva. Foto: Imprensa do Sindipetro-LP
Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP
Trabalhadoras e trabalhadores do setor administrativo da Petrobrás, do Litoral Paulista, se reuniram, nesta quarta-feira (4/6/25), em frente à portaria do Edisa Valongo, em Santos, para decidir a continuidade da luta em defesa do teletrabalho. Depois da greve de 48 horas, finalizada na segunda-feira última (2/6), a categoria se mostra ainda mais unida e mobilizada. Uma grande lição avança: a importância da unidade em todas as lutas da Categoria Petroleira, como a da próxima campanha salarial.
A assembleia decidiu pelo encaminhamento da diretoria do Sindipetro-LP de suspender qualquer deliberação sobre a proposta de teletrabalho feita pela Petrobrás. Conforme o sindicato: “A decisão foi motivada pelo envio de uma minuta rebaixada pela empresa às bases do Sindipetros que participaram da greve de 48 horas iniciada em 29 de maio. O rebaixamento, que excluiu três cláusulas fundamentais do acordo, gerou ampla indignação entre os trabalhadores e trabalhadoras, levando ao indicativo de suspensão.”
A proposta final da empresa foi atualizada pelo RH sob orientação da alta gestão com subtrações direcionadas apenas às bases onde a paralisação ocorreu, como a nossa e a do Rio de Janeiro, ambas ligadas à FNP. Para outras bases, como Minas Gerais e Bahia, a Petrobrás manteve as cláusulas originais. A empresa ataca os trabalhadores com chantagem e atropela princípios legais da organização sindical. Ela tenta dividir a categoria e punir quem está na luta.
A categoria volta a se reunir entre os dias 9 e 10 de junho para reavaliar a situação e deliberar sobre importantes decisões.
O vale tudo da Petrobrás
Se a categoria mostra sabedoria e dignidade, a máscara da diretoria da empresa cai. O que se apresenta para nós e para a sociedade é uma diretoria presa a velhos métodos antissindicais de pressão, punição e ameaças. É a Petrobrás negando a modernização, a sustentabilidade e as melhores práticas sociais e de governança. Enquanto queremos caminhar para frente, a atual diretoria, sob o comando de Magda Chambriard, anda para trás. O “vale tudo” da empresa promove a maior lambança nas relações trabalhistas, desconsiderando a legalidade e o Estado Democrático de Direito.
Greve é um direito assegurado pela Constituição Federal. Ou a Petrobrás, igual aos golpistas do 8 de janeiro de 2023, se acha acima da Constituição do Brasil? Repetindo bordões de inelegíveis da extrema-direita, quais são as “quatro linhas” da Constituição da empresa?
O direito de greve está consagrado no artigo 9º da Constituição Federal, que assegura aos trabalhadores o direito de greve, competindo a eles decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses a defender. A Lei nº 7.783/89, também conhecida como Lei de Greve, regulamenta o exercício desse direito.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece a greve como um direito decorrente da liberdade sindical, protegida pelas Convenções nº 87 e 98 da OIT. A jurisprudência da OIT e do Tribunal Internacional de Justiça da ONU já reconhecem o direito de greve como fundamental.
Na assembleia desta quarta-feira, as pessoas trabalhadoras do administrativo confirmaram o “grito de guerra”: Petrobrás nos respeite!
A diretoria do Sindipetro-LP relatou os últimos passos da empresa que, ao invés de avançar nas negociações, reage da forma mais intransigente possível, retroagindo a proposta por ela mesma apresentada. A empresa quer colocar a Categoria Petroleira contra a parede.
Trabalhadores de diferentes gerações constroem luta histórica do Administrativo
De fato, a forte mobilização que vem tomando conta dos escritórios tem incomodado a alta direção que prefere o comportamento subserviente dos trabalhadores. Uma grande diversidade de pessoas em luta, incluindo pessoas novas e muitas delas participando de suas primeiras mobilizações, mostra que a luta da classe se renova e não abaixa a cabeça para injustiças.
Entre aspas
Agilidade no trabalho e avanço na conscientização de classe
O que as trabalhadoras e os trabalhadores do setor administrativo da Petrobrás falam sobre o movimento em defesa do teletrabalho. Infelizmente, por razões das práticas antissindicais da diretoria da Petrobrás, não vamos identificar os/as entrevistados/as:
Profissional com mais de dez anos de Petrobrás
É o meu primeiro movimento na empresa. A atitude da empresa afetou diretamente nossa qualidade de vida e de trabalho. Bateu de frente. Por isso, a reação foi tão forte e unida. É uma luta importante e justa. Não estamos pedindo nada fora do que a empresa já nos dava, que é, basicamente, manter o modelo do teletrabalho.
Já se viu que o teletrabalho não prejudica em nada a empresa, não afeta prazo nem projetos.
A justificativa apresentada pela empresa para aumentar mais um dia de presencial, que é o de melhorar a integração da equipe, não se sustenta de forma alguma. Ao contrário, a integração das equipes aumentou depois do teletrabalho com as ferramentas online, fica tudo mais rápido e ágil. Acrescentar um dia de presencial vai desestruturar o que fizemos até aqui, além de prejudicar a saúde física e mental das pessoas, pois é mais tempo de trânsito, menos horas de sono, a produtividade cai. Considero o teletrabalho mais produtivo.
Mas o maior avanço dessa luta é realmente a unidade que conseguimos. Mostramos que o setor administrativo também sabe se mobilizar e brigar pelos seus direitos.
Profissional com tempo médio de mais de seis anos
Sim, é o meu primeiro movimento. Está muito bom, muita gente mobilizada. Bastante impacto. Ninguém gostou da mudança da empresa. É unânime. Até cargos de gerência mostraram descontentamento.
A mudança proposta da empresa, sem justificativa plausível, vai impactar muito a vida das pessoas. Com a pandemia nos adaptamos e vimos que funciona, e trabalhamos melhor em casa. No presencial a sensação é que rendemos menos.
A produtividade é maior, não tem o tempo de deslocamento, não tem o cansaço e temos mais tempo para passar com a família.
Se percebe uma integração melhor das equipes, consequência das ferramentas criadas e atualizadas com a pandemia. Integração muito grande. É muito mais fácil conversar com essas ferramentas, fica mais ágil. No presencial, antes de você falar com a pessoa de outra gerência, você envia um e-mail solicitando uma agenda. Não é simplesmente ir à gerência e bater na porta e entrar. Tem trâmites que no online são mais fáceis e ágeis, repito.
A expectativa é que se consiga avanços. A própria mobilização já é uma conquista. Vai ter acordo coletivo pela frente e ter a galera mobilizada é muito importante.
Profissional com tempo médio de empresa de mais de 12 anos
Considero o movimento do setor administrativo da Petrobrás um marco na história da categoria. Também é a minha primeira participação. O problema iminente de se perder um direito conquistado, o teletrabalho, trouxe à tona uma força importante. É uma boa oportunidade de melhorar o nível de conscientização de classe para outras lutas, num mundo que está se transformando radicalmente. Acredito que essa conscientização que estamos criando com a luta do teletrabalho será importante para lutas futuras.
O teletrabalho melhora a produtividade, é um fato. Mas precisamos pensar a produtividade para além da entrega de um trabalho para um projeto. Tudo fica melhor trabalhando remotamente com as tecnologias criadas. Não há nada que mostre que houve retração nos lucros da empresa com o teletrabalho, ao contrário, os indicadores de lucro da empresa continuam crescendo.
A criação dessa massa mais consciente no setor administrativo, vai permitir discutir a produtividade em outros patamares para além do lucro dos acionistas. Precisamos pensar na produtividade que envolva os interesses das pessoas que trabalham. Por isso, são necessárias algumas perguntas: Como podemos trabalhar e sermos mais felizes? Como podemos trabalhar e termos mais saúde? O que é produtividade? O que é o trabalho? O que eu gero com o meu trabalho aqui ou em outra empresa?
Vamos acreditar que é o início de alargamos nossos horizontes para além dos muros ou das paredes da empresa. Vamos perceber como está a sociedade. Vamos parar e pensar em outras lutas importantes, como o fim da escala 6x1. Jornadas melhores na Petrobrás e em outras empresas podem gerar emprego para outras pessoas.