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Reflexões sobre a história e a atualidade das lutas por diversidade e justiça social
Anderson "Mancuso" do N. Pereira
Presidente da ABCP
Neste 28 de junho, o mundo celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, uma data que ecoa o levante da Revolta de Stonewall, ocorrida em Nova Iorque, em 1969. Liderada por figuras marcantes como Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Stormé DeLarverie, Miss Major Griffin-Gracy, entre outras ativistas trans negras e latinas, a revolta foi um enfrentamento corajoso à violência policial e durou vários dias. Esse episódio tornou-se um marco simbólico na história da luta pela diversidade, mas é fundamental reconhecer que as raízes da resistência LGBTQIAPN+ são profundas e precedem Stonewall, atravessando séculos de história e sendo protagonizadas por pessoas negras, indígenas e de múltiplas vivências dissidentes.
Conhecer as histórias dos povos originários emais especificamente o assassinato do índigena Timbiras, da travesti negra escravizada Xica Manicongo, do líder quilombola Zumbi dos Palmares, entre tantas outras existências, lança luz sobre a resistência invisibilizada pelas lentes coloniais. A luta de pessoas indígenas e negras foi e continua sendo essencial para o enfrentamento à violência colonial e escravagista, estando intrinsecamente vinculada à luta pela diversidade sexual, gênero e identidade gênero.
A imposição do padrão branco, cristão e cis-heteronormativo começou com a invasão de Pindorama — nome dado pelos povos indígenas ao território brasileiro antes da chegada portuguesa. O impacto desse processo não se restringe ao Brasil, estendendo-se ao continente africano, onde o imperialismo difundiu religiões e visões de mundo que fortaleceram a LGBTfobia. Tanto o colonialismo cristão quanto o islamismo, em determinados contextos históricos, contribuíram para consolidar estados de violência extrema contra pessoas LGBTQIAPN+, sendo crucial compreender como essas raízes impactam realidades atuais.

Manifestação do Primeiro de Maio em São Bernardo do Campo, 1980. Crédito: site Memórias da ditadura.
“Máscaras coloridas” no ambiente corporativo
Ao analisar o cenário corporativo e estatal brasileiro, percebe-se como a pauta LGBTQIAPN+ foi tratada de maneira distinta nos governos social-liberais em comparação ao governo de extrema-direita. Entre os mandatos do governo Lula, passos importantes foram dados, como a extensão de direitos previdenciários e planos de saúde para casais homoafetivos, pressionados por movimentos como da FNP. No entanto, temas como saúde mental, assédio moral e sexual e outras formas de violência no trabalho eram frequentemente ignorados ou minimizados pelas empresas.
Após o golpe de 2016 e o impeachment de Dilma Rousseff, instalou-se um governo que incentivou políticas de ódio e retrocessos em direitos, além de promover privatizações, desinvestimentos e insegurança no ambiente de trabalho — impactando especialmente pessoas atravessadas por machismo, racismo e LGBTfobia. Com o retorno de um governo social-liberal, ações e espaços voltados para a diversidade foram retomados, ainda que persistam contradições profundas. A política de diversidade muitas vezes é incorporada ao discurso corporativo como estratégia de negócio, canalizando a energia das pessoas diversas para entregarem melhores resultados, mas sem necessariamente transformar as estruturas reais de poder e reconhecimento.
Iniciativas como comitês de diversidade “centrais”, caravanas com eventos e palestras são essenciais, porém, ao olhar mais de perto, identifica-se um abismo entre a linguagem inclusiva do discurso e as experiências vividas no cotidiano empresarial. O letramento racial e de diversidade, muitas vezes, serve para construir “máscaras coloridas” que encobrem, de forma oportunista, pessoas com práticas opressoras. A presença de pessoas LGBTQIAPN+ — especialmente negras, travestis, não-binárias e bissexuais — em cargos de liderança ainda é muito rara, e suas pautas frequentemente são invisibilizadas. O modelo desejado pela empresa privilegia um perfil “bem-comportado”, produtivista, empreendedor, desvinculado da luta coletiva, da questão racial e da transformação social defendida por sindicatos e movimentos populares.
Assim, a diversidade é “enlatada” em rótulos higienizados, reproduzindo os mesmos processos de castração social impostos historicamente à população LGBTQIAPN+.
Confluência das lutas: exploração, opressões e meio ambiente
A mobilização recente em torno do teletrabalho evidenciou o protagonismo de jovens e o compromisso — muitas vezes superficial e falso — da empresa com valor cuidado com as pessoas. Experiências compartilhadas em rodas de debate revelam que mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ continuam enfrentando ambientes tóxicos, distantes do ideal de bem-estar, mesmo em condições de trabalho presenciais. Apesar de o ambiente sindical ser ainda majoritariamente masculino, cis e heterossexual, torna-se cada vez mais fundamental a auto-organização e participação das pessoas diversas nas lutas da classe trabalhadora.
A luta por diversidade está ligada a inúmeras outras: defesa dos povos originários e da população negra, luta ambiental, enfrentamento ao racismo e ao machismo. A diversidade, dissociada dessas frentes, transforma-se em simples maquiagem de um sistema que perpetua exclusão e violência. Apenas a luta coletiva tem o poder de mudar vidas e estruturas.
Em defesa da diversidade, nenhum passo atrás! Reconhecer a história, valorizar as resistências e promover a interseccionalidade são caminhos fundamentais para a construção de um mundo mais justo para todas, todos e todes.
