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Professoras falam sobre greve de Belo Horizonte e dos laços que se criam na luta comum em defesa de justiça social
Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP
A importância da solidariedade entre a classe trabalhadora motivou a ABCP a conhecer um pouco mais a história da luta dos educadores de Belo Horizonte (MG). Foi assim que chegamos a duas mulheres guerreiras. Maria da Consolação é professora aposentada e ex-diretora do SindREDE, “uma vez na luta, sempre na luta”. E Luanna de Grammont, professora de Artes e diretora do SindREDE de Belo Horizonte, “aprendemos com os que vieram antes de nós, e honramos a história em defesa de direitos e conquistas”.
ABCP – Neste momento, a cidade de Belo Horizonte se transforma com o movimento dos educadores e educadoras da rede municipal de ensino. Já são mais de 20 dias de paralisação. O que está realmente em jogo nessa greve? Estamos apenas falando do justo reajuste de 6,27% para chegar ao piso nacional de 2025? O que está em jogo na deliberada desvalorização da rede pública básica e infantil?
Luanna de Grammont – É uma paralisação histórica. Já são mais de 27 dias. É uma greve grande, com assembleias e atos muito grandes, com muitos novatos da rede municipal participando.
O que está em jogo é o reconhecimento da especificidade da Educação com verba e rubrica próprias, a sua importância para termos uma sociedade mais inclusiva e democrática, e menos desigual.
Nesse sentido, lutamos pelo reconhecimento da lei nacional do piso – mínimo anual que deve ser aplicado aos salários – da data-base da Educação em janeiro, do direito a um terço da jornada para planejamento. Outra questão
importante que o sindicato está levando é que o reajuste precisa ser no índice para atingir toda a categoria. Ou seja, quem está na ativa e os aposentados.
Unimos, e não dividimos a categoria. Por isso, não aceitamos penduricalhos ou qualquer tipo de compensação que atinja apenas um pequeno grupo e que desconsidere os aposentados. Essa, infelizmente, é a “política” que a Prefeitura de Belo Horizonte vem implantando nos últimos tempos.
ABCP - Como você tem sentido a reação da sociedade em relação à greve?
Luanna de Grammont – Estamos sentindo um clima muito favorável, muito bom. Estamos conquistando apoio massivo da comunidade. Os pais e as mães estão participando das assembleias e dos atos. Está sendo muito bacana a recepção da comunidade. Há a compreensão das dificuldades que enfrentamos nas escolas. A comunidade e os pais e mães estão empenhados, junto com a gente, na valorização da Educação e de seus profissionais.
ABCP - Como essa greve traz importantes ensinamentos para a sociedade da cidade, mas também para todos nós? Por que a educação pública é tão atacada pela conformação partidária da direita e da extrema-direita?
Maria da Consolação – A Educação pública do Ensino Básico é uma conquista, gratuita e para todos – relativamente recente, dos anos 1990. Ela precisa ser defendida e efetivada. Muitas leis são desrespeitadas, como a lei do piso nacional. Na prefeitura de BH, uma das mais ricas do país, querem transformar o piso salarial nacional em teto.
Precisamos defender a Educação pública, gratuita e de qualidade para todas as pessoas. Porque o outro projeto de educação é restritiva e excludente – querem apenas uma educação “funcional” – saber escrever o nome, fazer algumas contas. Mas não nos querem saber pensar, refletir e analisar para compreender os interesses em jogo numa sociedade como a nossa, de origem escravagista e violenta. A nossa economia tem um DNA horrível, o da escravização, da eliminação dos povos originários, o da falta de respeito ao meio ambiente, o da desigualdade social, política e econômica.
A Educação que defendemos é a da expressão da cultura de todos nas escolas – e não estamos falando apenas na presença física na carteira em sala de aula, mas no currículo.
A categoria da rede municipal de Belo Horizonte está mostrando consciência disso, com a participação de jovens profissionais já entendendo o processo de disputa na sociedade. Educação pública, gratuita e de qualidade é fundamental. Se nos querem de novo acorrentados, estamos mostrando que queremos a liberdade.
ABCP - O partido do prefeito Damião, o União Brasil, assume o perfil de protetor de pautas do capital e da financeirização e contrário aos temas sociais voltados à sociedade, como garantir recursos para saúde e educação principalmente, no Congresso Nacional. Como a atitude de Brasília se liga à gestão do prefeito de BH?
Maria da Consolação – O governo Damião se insere na hegemonia midiática do discurso da extrema-direita, no avanço do discurso de ódio em nosso Brasil. Cenário que não está apenas em Minas Gerais, mas em todo o país – que se expressa, inclusive, nas decisões mais absurdas que estamos vendo no Congresso Nacional. Dos partidos do Centrão e do campo da extrema-direita – como os partidos ligados ao bolsonarismo – que se sentem à vontade – e impunes – em votar contra a sociedade brasileira, contra políticas públicas que promovam justiça social e econômica
Mas, no primeiro ano desse governo [de Álvaro Damião], o prefeito já enfrentou a reação dos professores da rede municipal. E tivemos uma novidade nesse cenário, o apoio massivo da população.
Se o discurso do ódio e da defesa do mercado tem penetração forte porque está na hegemonia midiática, a vida e o contato com as pessoas no cotidiano são muito mais fortes. A luta e a resistência são muito fortes.
Precisamos lembrar disso sempre. Nos querem quase que “lobotomizados” pelo discurso único da mídia, mas somos diversos, plurais e não queremos uma sociedade brasileira do ódio ou da guerra. A mídia não nos vence quando estamos unidos na luta coletiva pelos nossos direitos, que não são os privilégios dos ricos e dos bilionários como estão fazendo os partidos do Centrão e da extrema-direita no Congresso Nacional.
A nossa pauta está ligada à vida, à justiça social, à democracia. Queremos saúde, educação, trabalho, transporte, lazer de qualidade.