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Não é mídia, é mídia burguesa; não é informação, é interesse de classe

10/07/2025

  

Não é mídia, é mídia burguesa; não é informação, é interesse de classe

Somos bombardeados todos os dias com a pretensa notícia objetiva e neutra, mas ela não existe

Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP

Toda imprensa tem lado. E tudo bem! O problema é esconder essa informação para as pessoas – eu e você. A imprensa sindical tem lado, a dos trabalhadores. A imprensa da esquerda tem lado, a da esquerda. A imprensa dos movimentos populares, a das causas sociais. E estamos falando de veículos de informação e formação cuja circulação não alcança, por exemplo, a audiência de um Jornal Nacional, da TV Globo.

Mas quem esconde o lado que tem e que defende? Quem faz isso, o tempo todo, é a mídia dos grandes grupos econômicos: TV Globo, Record TV, Band TV, jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, revista Veja e por aí vai. São os meios de comunicação que se autodefinem “grande imprensa”; mas vamos chamar pelo nome verdadeiro, mídia burguesa.

A disputa política implica disputa ideológica. E disputa ideológica é disputa da informação, da comunicação. Informação é poder, esta é a velha frase que sintetiza a força da comunicação (Vito Giannotti).

Se é mídia burguesa não é nossa informação que ela vai veicular, não são os nossos interesses que ela vai defender. Ao contrário, as lutas dos trabalhadores sempre são tratadas de forma negativa, como baderna, como prejuízo. Quando a greve da Categoria Petroleira foi divulgada de forma correta pela mídia burguesa? Nunca! 

A mídia burguesa quer nos convencer de que faz jornalismo profissional – que apenas liga fatos às pessoas. A notícia não “dá” em árvore. Não existe realidade objetiva. A informação que vemos na tela (do televisor, do computador, dos dispositivos móveis), no jornal e que ouvimos no rádio passa pela linha editorial dos donos dessa mídia. Ou seja, pelos seus interesses políticos e econômicos.

A grande imprensa tem seus objetivos muito bem definidos. Tem sua visão de mundo e defende os interesses de uma só classe. Só que isto não pode transparecer nas linhas do jornal. A grande imprensa age sob o mito da neutralidade (Santiago; Giannotti, 1997, p. 137).

A mídia burguesa quer nos convencer que eu e você temos os mesmos interesses de banqueiros; do capital especulativo que se beneficia da alta taxa de juros da Selic; da Faria Lima; dos acionistas da Petrobrás; das transnacionais; dos Estados Unidos; de Israel; de Elon Musk; dos partidos do Centrão e da extrema-direita bolsonarista que estão votando contra a sociedade brasileira no Congresso Nacional (são muitos os casos, mas vamos citar a votação recente contra a taxação dos ricos com o IOF e a não aprovação do projeto do governo Lula de isentar quem recebe até 5 mil reais de pagar imposto de renda). A última, especificamente do Jornal Nacional, edição do dia 3 de julho último, foi tentar livrar a cara do Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados e dos Republicanos, que está usando o cargo para proteger os bilionários e prejudicar eu e você!

O geógrafo brasileiro Milton Santos (2000) fala, acertadamente, em “violência da informação”. Segundo ele:

O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. Isso tanto é mais grave porque, nas condições atuais da vida econômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível. Mas na medida em que o que chega às pessoas, como também às empresas e instituições hegemonizadas, é, já, o resultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia (Santos, 2000, p. 39).

A indústria da comunicação – composta por conglomerados multimídia, plataformas digitais, agências de notícias e empresas de publicidade – não atua apenas como mediadora neutra da informação. Pelo contrário, insere-se como agente ativo, com interesses concretos e alinhados à manutenção da ordem neoliberal e financeirizada. Esses interesses se manifestam de diversas formas:

  1. Concentração de propriedade: A mídia está cada vez mais concentrada em poucas corporações transnacionais, frequentemente ligadas a grupos financeiros e interesses empresariais. Isso limita a pluralidade de vozes e perspectivas sobre temas econômicos e sociais;
  2. Agenda e enquadramento: Ao selecionar e enquadrar notícias, a mídia favorece discursos que naturalizam o livre mercado, a meritocracia e a eficiência privada, enquanto marginaliza debates sobre desigualdade, justiça social e intervenção estatal.
  3. Publicidade e consumo: A dependência crescente de receitas publicitárias vincula os meios de comunicação a empresas e bancos, reforçando valores de consumo, individualismo e financeirização da vida cotidiana.
  4. Desinformação e silenciamento: Narrativas críticas ao neoliberalismo e à financeirização tendem a ser minimizadas, distorcidas ou simplesmente excluídas do debate público, dificultando o surgimento de alternativas democráticas.

A mídia não é apenas reflexo da ordem econômica e social, mas parte constitutiva dela. Os interesses concretos dos grupos midiáticos – sejam eles econômicos, políticos ou ideológicos – orientam suas práticas editoriais, estratégias comunicacionais e alianças institucionais. Essa atuação contribui para: 1. Reforçar a legitimidade do neoliberalismo como “único caminho possível” para o progresso econômico; 2. Naturalizar a financeirização da economia e das relações sociais; 3. Desmobilizar setores populares e dificultar a construção de narrativas alternativas.

Neoliberalismo
Receituário econômico que defende a desregulamentação dos mercados, a flexibilização das relações de trabalho, a redução do papel do Estado e a primazia da lógica do capital. Em paralelo, a financeirização caracteriza-se pelo predomínio do setor financeiro sobre a produção material, pela mobilização de capitais especulativos e pela centralidade dos mercados financeiros na dinâmica econômica global.

Pensar criticamente sobre o papel da mídia em contextos de avanço neoliberal e financeirização é essencial para compreender os mecanismos de manutenção da ordem vigente. A democratização da comunicação e o fortalecimento de alternativas midiáticas são fundamentais para promover o debate público plural e a construção de uma sociedade mais justa e democrática.

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Referências bibliográficas

SANTIAGO, Claudia; GIANNOTTI, Vito. Comunicação sindical: falando para milhões. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.