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Chacina atingiu território onde moram mais de 300 mil pessoas, os complexos do Alemão e da Penha
Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP
Com informações do ICL, da Agência Brasil e do Outras Palavras
Fotos utilizadas da Agência Brasil
Não foi combate ao crime organizado, foi chacina. Não foi ação governamental, foi violência de Estado. Não foi política de segurança pública, foi projeção para as próximas eleições.
O Brasil, neste 28 de outubro, viu a pior ação de um governo estadual se esconder sob o mito de combate ao crime organizado ou às drogas. Claudio Castro, o governador fluminense, é responsável pela operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. Até o momento da publicação deste texto, o massacre já contabilizava mais de 110 mortos.
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Agenda nacional de atos Chega de Chacina!
Claudio Castro oferece à elite brasileira e à mídia tradicional a morte de corpos periféricos e, na sua grande maioria, negros. Para ele, no entanto, a operação foi um sucesso e teve apenas quatro mortes, a de policiais.
Espetáculo macabro, o governador do PL tenta ganhar projeção às custas da vida do povo trabalhador. Não por acaso, a chacina acontece um ano antes das eleições e pelas mãos de um governador decaído.
“A polícia do estado do Rio de Janeiro, comandada por Cláudio Castro, o resto do bolsonarismo, atacou um território onde moram 300 mil pessoas, o Complexo do Alemão e da Penha. Uma fila de corpos foi estendida no chão do bairro, mostrando 64 pessoas assassinadas, enquanto o governador comemorava em rede nacional o maior massacre da história do Rio. E a pergunta que ecoa em todos os cantos, feita por uma das lideranças do bairro Raul Santiago, foi: “você se sente mais seguro?””
Mateus Muradas, em Outras Palavras
Em emocionante discurso na tribuna da Câmara dos Deputados, na noite de quarta-feira (28/10), a parlamentar Benedita da Silva (PT-RJ) lamentou a operação: “O meu discurso é de quem morou 57 anos na favela e conhece a dor e o desespero dos moradores quando ocorre uma operação policial desastrosa e a maldade e a perversidade de quem não sabe governar.”
Ela prosseguiu:
“Não pode ser natural você ir para um território onde há milhares de pessoas e querer fazer uma operação a céu aberto, colocando as famílias em pânico, colocando as crianças fora da escola, colocando as pessoas fora do trabalho!”
“Dói o meu coração ouvir que aquelas pessoas são todas bandidas, aquelas pessoas que suam, que vão vender seus caixotes, que vão vender a sua bebida na rua, que vão pegar cafezinho de madrugada, servindo no ônibus, lá no ponto de ônibus. Essas são as pessoas consideradas marginais por esta Casa.

A parlamentar aproveitou para relatar como as operações ocorrem dentro das periferias. “Sabem como chegam? Não pedem licença. Não procuram a carteira de trabalho de ninguém. Não perguntam para o homem da padaria. Não perguntam para a mercearia. Não falam com a farmácia. Não discutem com a escola. Não, faz-se a operação, e todas essas pessoas são bandidas!”
Conforme reportagem da Agência Brasil, a cena dos corpos enfileirados na Praça São Lucas, no complexo da Penha, na manhã desta quarta-feira (29), correram o Brasil e o mundo. Ao lado das dezenas de homens mortos durante a Operação Contenção, realizada ontem (28) pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, estavam familiares, em sua maioria mulheres. Mães, irmãs e esposas que choravam ao redor dos corpos e questionavam a ação do Estado.
As favelas não refinam cocaína, não fabricam armas e nem lavam o dinheiro do tráfico. O que fez o crime ser abalado foi quando a Polícia Federal chegou à Faria Lima, nos fundos de investimento que faltam dinheiro sujo, nas redes de postos de gasolina e até usinas de etanol. Isso sim, fez o crime tremer, porque mexeu no bolso. As mortes desses jovens são calculadas pelos barões do tráfico, fazem parte do negócio e do lucro. Não é diferente para este resto de bolsonarismo, que ainda domina o Rio, e comemora nas redes… Calculam a morte de pobres e os possíveis ganhos eleitorais… Estes estão do mesmo lado, o lado da Morte!
Mateus Muradas, em Outras Palavras
O advogado Albino Pereira, que representa algumas das famílias, acompanhou a ação durante a manhã. Na avaliação dele, há sinais claros de tortura, execução e outras violações de direitos. “Você não precisa nem ser perito para ver que tem marca de queimadura [na pele]. Os disparos foram feitos com a arma encostada. Chegou um corpo aqui sem cabeça. A cabeça chegou dentro de um saco, foi decapitado. Então isso aqui foi um extermínio”, aponta.

Fundador da ONG Rio da Paz, Antonio Carlos Costa acompanhou as cenas na Praça São Lucas e criticou a letalidade da operação. “Não há uma invasão aqui do Estado na sua plenitude, trazendo saneamento básico, moradia digna, acesso à educação de qualidade, hospitais decentes. Por que historicamente a resposta tem que ser essa? E por que a sociedade não se revolta?”, questionou.
“No Rio de Janeiro, na contramão, vemos a intensificação de uma certa agenda de guerra urbana, coordenada pelo Estado, como parte das táticas de governança da extrema-direita, com o terror sendo o principal alicerce de um projeto ultraliberal de retirada de direitos da população. Por um lado, intensifica-se a violência de Estado nas favelas e periferias e, por outro, violam-se direitos dos trabalhadores.”
Caique Azael, em Outras Palavras
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