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O título deste artigo é uma frase do professor Milton Santos (1926-2001). Para mim, resumo dos nossos dias cercados pela midiatização da vida. (Foto de destaque deste artigo é da Agência de Notícias WANA).
Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP
No Brasil, a imprensa é muito séria. Se você pagar, eles até publicam a verdade.
Juca Chaves
Acrescento este parágrafo inicial, no momento em que retorno ao artigo para finalizá-lo. O motivo são as notícias sobre os ataques dos governos genocidas de Israel e dos Estados Unidos, contra o Irã, na manhã de 28 de fevereiro último. Os acontecimentos, infelizmente, acabam confirmando a observação de Milton Santos (2000, p.38-39): “Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação. [...] O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.”
Mais uma vez somos atingidos pela violência da informação; aquela que se quer passar por plural, neutra e imparcial, mas que é monocórdica e instrumental. É o que se vê no noticiário que tenta “explicar” as bombas de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu matando autoridades, civis, crianças inclusive, no Irã. Ou, como bem disse minha amiga e jornalista Cidinha Santos, vemos, mais uma vez, a “mídia inimiga” em ação.
Nas primeiras “notícias” da mídia, apresentadores e repórteres de TV carregam na surpresa ao falarem sobre o ataque, mas não trazem informações que poderiam colocar a ação dos dois governos em suspeição e até na esfera de ataques terroristas. A narrativa midiática naturaliza tudo o que está no seu campo político. Aliás, interessante ver o correspondente da vênus platinada, de Nova York, Jorge Pontual, em entrada especial do JN, pouco mais das 22h, do dia 28 de fevereiro, tentando invalidar a revolta do povo iraniano em relação aos ataques que resultaram na morte de civis e de Ali Khamenei: “A religião xiita tem esse histórico da martirização. Em toda essa narrativa, que agora os iranianos vão usar que o aiatolá foi martirizado.”
É medonho ver a mídia corporativa – como a TV Globo, em seus telejornais – dando voz ao tresloucado Trump, como se este tivesse autoridade e sanidade suficientes para falar sobre seus crimes e, o pior, normalizá-los. O telejornal da tarde chega, no dia 2 de março, à subserviência vira-lata de colocar, ao vivo, o pronunciamento do presidente (?) estadunidense com tradução simultânea. Por que esse privilégio de fala, ou melhor, por que esse monopólio de fala?
Os governos dos Estados Unidos e de Israel não são questionados pelos bombardeios, as notícias apresentam supostas “razões” para o ataque: impedir o país iraniano de ter armas nucleares e garantir a democracia. Trump ainda é chamado de presidente e Netanyahu de primeiro-ministro israelense. A pecha de ditador ficará apenas com o aiatolá Ali Khamenei – aqui não se trata de defender o aiatolá, mas de compreender a história de um país assombrado há centenas de anos por interesses coloniais diversos, principalmente do Reino Unido. Em brilhante artigo (“Para enxergar o Irã sem os filtros da mídia”), o jornalista Carlos Azevedo diz: “Passeio pela história de uma civilização milenar e um país rebelde, que derrotou impérios. As revoluções. A nacionalização do petróleo, que o Ocidente jamais engoliu. O poder e o conservadorismo do clero. Um prognóstico: a guerra de Trump não será fácil.”[i]

Estudantes e professores mortos ou feridos no Irã. Mídias sociais / Agência de Notícias WANA.
No noticiário digital, também da mídia monopolizada, quase como uma justificativa, podemos ler “O ataque ocorreu após semanas de tensas negociações e pressão americana para que Teerã encerrasse seu programa nuclear”; “Um resumo dos fatos”; “Programa nuclear iraniano está no centro do confronto”; “Trump e Netanyahu defendem mudança de regime iraniano, mas se expõem a riscos políticos”; “Casa Branca divulgou imagem de Trump em reunião para monitorar a operação no Irã neste sábado (28)”; “Trump diz já ter nome em mente para sucessão de líder supremo do Irã”.
Outro episódio envolvendo o “jornalismo profissional” da mídia corporativa também teve como personagem o “presidente” Trump. Se deu em Nova Déli, na Índia, em entrevista coletiva do presidente Lula, em 22 de fevereiro último. O repórter Tiago Eltz, da Globo, ao fazer sua pergunta, tentou insinuar que, em conversa com o norte-americano, o presidente brasileiro teria dito que aceitaria receber criminosos no país. A formulação do repórter: “[...]O senhor disse, em conversa com o presidente Trump, que pode acertar de receber criminosos no Brasil ou quem cometeu crime por lá.”
De forma firme e educada, Lula interrompe o repórter para restabelecer a verdade dos fatos, nos seguintes termos: “Não, você não ouviu isso aqui. Se eu aceito que você faça a pergunta do jeito que você está fazendo, dá a impressão de que eu falei isso, eu não falei isso.”

Sem jeito, repórter da Globo coça a cabeça ao receber invertida do presidente Lula, em razão de formulação de pergunta maliciosa e tendenciosa à liderança brasileira.
O jornalista tenta “lacrar” de novo: “Não, eu ia só terminar, porque para o presidente Trump eles são criminosos. O senhor falou de receber, por exemplo, criminosos de combustíveis, que já cometeram crimes por lá…” Lula responde de forma séria e olhando diretamente o entrevistador: “Não, não, não. Nós queremos é prendê-los. Eu não quero recebê-los, eu quero prendê-los. Nós bloqueamos 250 milhões de litros de gasolina em cinco navios, entregamos para Petrobras. Essa pessoa mora em Miami, nós mandamos para o presidente [Donald] Trump a fotografia da casa dele, o nome dele, e nós queremos essa pessoa no Brasil. É para combater o crime organizado? Então nos entregue os nossos bandidos.”
A aderência dos discursos jornalísticos pró-Estados Unidos ou Israel e contrários à esquerda, ao MST, às greves e aos movimentos dos/as trabalhadores/as, entre outros fora do campo liberal, não ocorre de um dia para o outro. Para ter potência e influência, o discurso das mídias precisa construir memória cultural baseada na repetição ao longo do tempo, e tempo é o que não falta à mídia monopolizada – ela está aí dominando diversos meios há muito tempo (só o Grupo Globo está ativo há 100 anos com o jornal O Globo, e sua emissora, há 61).
Como observa a professora Zoppi (2020, p.8)[i]: “O efeito de evidência e naturalização é resultado dessa repetição insistente, ininterrupta, hegemônica: assim se constrói um suposto consenso. A perversidade desse funcionamento está em atribuir à “opinião pública” aquilo que foi tão bem articulado e imposto ao longo do tempo.”
[i] Prefácio da professora Mónica Zoppi no livro “As evidência do discurso neoliberal na mídia”, de Thierry Guilbert.
[i] Disponível em: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/para-enxergar-ira-sem-os-filtros-da-midia/. Acesso em: 2 mar. 2026.