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A violência da informação

04/03/2026

  

A violência da informação

O título deste artigo é uma frase do professor Milton Santos (1926-2001). Para mim, resumo dos nossos dias cercados pela midiatização da vida. (Foto de destaque deste artigo é da Agência de Notícias WANA).

Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP

No Brasil, a imprensa é muito séria. Se você pagar, eles até publicam a verdade.
Juca Chaves

Acrescento este parágrafo inicial, no momento em que retorno ao artigo para finalizá-lo. O motivo são as notícias sobre os ataques dos governos genocidas de Israel e dos Estados Unidos, contra o Irã, na manhã de 28 de fevereiro último. Os acontecimentos, infelizmente, acabam confirmando a observação de Milton Santos (2000, p.38-39): “Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação. [...] O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.”

Mais uma vez somos atingidos pela violência da informação; aquela que se quer passar por plural, neutra e imparcial, mas que é monocórdica e instrumental. É o que se vê no noticiário que tenta “explicar” as bombas de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu matando autoridades, civis, crianças inclusive, no Irã. Ou, como bem disse minha amiga e jornalista Cidinha Santos, vemos, mais uma vez, a “mídia inimiga” em ação.

Nas primeiras “notícias” da mídia, apresentadores e repórteres de TV carregam na surpresa ao falarem sobre o ataque, mas não trazem informações que poderiam colocar a ação dos dois governos em suspeição e até na esfera de ataques terroristas. A narrativa midiática naturaliza tudo o que está no seu campo político. Aliás, interessante ver o correspondente da vênus platinada, de Nova York, Jorge Pontual, em entrada especial do JN, pouco mais das 22h, do dia 28 de fevereiro, tentando invalidar a revolta do povo iraniano em relação aos ataques que resultaram na morte de civis e de Ali Khamenei: “A religião xiita tem esse histórico da martirização. Em toda essa narrativa, que agora os iranianos vão usar que o aiatolá foi martirizado.”

É medonho ver a mídia corporativa – como a TV Globo, em seus telejornais – dando voz ao tresloucado Trump, como se este tivesse autoridade e sanidade suficientes para falar sobre seus crimes e, o pior, normalizá-los. O telejornal da tarde chega, no dia 2 de março, à subserviência vira-lata de colocar, ao vivo, o pronunciamento do presidente (?) estadunidense com tradução simultânea. Por que esse privilégio de fala, ou melhor, por que esse monopólio de fala?

Os governos dos Estados Unidos e de Israel não são questionados pelos bombardeios, as notícias apresentam supostas “razões” para o ataque: impedir o país iraniano de ter armas nucleares e garantir a democracia. Trump ainda é chamado de presidente e Netanyahu de primeiro-ministro israelense. A pecha de ditador ficará apenas com o aiatolá Ali Khamenei – aqui não se trata de defender o aiatolá, mas de compreender a história de um país assombrado há centenas de anos por interesses coloniais diversos, principalmente do Reino Unido. Em brilhante artigo (“Para enxergar o Irã sem os filtros da mídia”), o jornalista Carlos Azevedo diz: “Passeio pela história de uma civilização milenar e um país rebelde, que derrotou impérios. As revoluções. A nacionalização do petróleo, que o Ocidente jamais engoliu. O poder e o conservadorismo do clero. Um prognóstico: a guerra de Trump não será fácil.”[i]


Estudantes e professores mortos ou feridos no Irã. Mídias sociais / Agência de Notícias WANA.

No noticiário digital, também da mídia monopolizada, quase como uma justificativa, podemos ler “O ataque ocorreu após semanas de tensas negociações e pressão americana para que Teerã encerrasse seu programa nuclear”; “Um resumo dos fatos”; “Programa nuclear iraniano está no centro do confronto”; “Trump e Netanyahu defendem mudança de regime iraniano, mas se expõem a riscos políticos”; “Casa Branca divulgou imagem de Trump em reunião para monitorar a operação no Irã neste sábado (28)”; “Trump diz já ter nome em mente para sucessão de líder supremo do Irã”.

Outro episódio envolvendo o “jornalismo profissional” da mídia corporativa também teve como personagem o “presidente” Trump. Se deu em Nova Déli, na Índia, em entrevista coletiva do presidente Lula, em 22 de fevereiro último. O repórter Tiago Eltz, da Globo, ao fazer sua pergunta, tentou insinuar que, em conversa com o norte-americano, o presidente brasileiro teria dito que aceitaria receber criminosos no país. A formulação do repórter: “[...]O senhor disse, em conversa com o presidente Trump, que pode acertar de receber criminosos no Brasil ou quem cometeu crime por lá.”

De forma firme e educada, Lula interrompe o repórter para restabelecer a verdade dos fatos, nos seguintes termos: “Não, você não ouviu isso aqui. Se eu aceito que você faça a pergunta do jeito que você está fazendo, dá a impressão de que eu falei isso, eu não falei isso.”


Sem jeito, repórter da Globo coça a cabeça ao receber invertida do presidente Lula, em razão de formulação de pergunta maliciosa e tendenciosa à liderança brasileira.

O jornalista tenta “lacrar” de novo: “Não, eu ia só terminar, porque para o presidente Trump eles são criminosos. O senhor falou de receber, por exemplo, criminosos de combustíveis, que já cometeram crimes por lá…” Lula responde de forma séria e olhando diretamente o entrevistador: “Não, não, não. Nós queremos é prendê-los. Eu não quero recebê-los, eu quero prendê-los. Nós bloqueamos 250 milhões de litros de gasolina em cinco navios, entregamos para Petrobras. Essa pessoa mora em Miami, nós mandamos para o presidente [Donald] Trump a fotografia da casa dele, o nome dele, e nós queremos essa pessoa no Brasil. É para combater o crime organizado? Então nos entregue os nossos bandidos.”

A aderência dos discursos jornalísticos pró-Estados Unidos ou Israel e contrários à esquerda, ao MST, às greves e aos movimentos dos/as trabalhadores/as, ao PT, ao próprio presidente Lula, entre outros fora do campo liberal, não ocorre de um dia para o outro. Para ter potência e influência, o discurso das mídias precisa construir memória cultural baseada na repetição ao longo do tempo, e tempo é o que não falta à mídia monopolizada – ela está aí dominando diversos meios há muito tempo (só o Grupo Globo está ativo há 100 anos com o jornal O Globo, e sua emissora, há 61).

Como observa a professora Zoppi (2020, p.8)[ii]:  “O efeito de evidência e naturalização é resultado dessa repetição insistente, ininterrupta, hegemônica: assim se constrói um suposto consenso. A perversidade desse funcionamento está em atribuir à “opinião pública” aquilo que foi tão bem articulado e imposto ao longo do tempo.”

Atenção para as notícias que hoje são destacadas pelos telejornais da TV Globo envolvendo o caso das investigações do Banco Master e a CPMI do INSS. Novo personagem entrou na cena, o ministro André Mendonça, do STF. Ao mesmo tempo, percebe-se a profusão de “vazamentos” seletivos (e manipulados?) de informações sigilosas que vão ilustrar “notícias” confusas, sem a devida constatação de procedência, verificação se são realmente fidedignas etc..

A TV Globo encontrou um “novo” Sérgio Moro em novo processo eleitoral fundamental para o Brasil? É a história se repetindo, mais uma vez nesse caso, como farsa?

O que o Jornal Nacional da TV Globo ou demais mídias corporativas (como Record, Band, SBT, TV Cultura, Jovem Pan) não noticiam: 

1- CPI do Crime aprova quebra de sigilos de Zettel, doador de campanha de Tarcísio e Bolsonaro: https://iclnoticias.com.br/cpi-do-crime-organizado-aprova-quebra-de-sigilos-de-pastor-ligado-ao-caso-master/

2- Filho de Ibaneis comprou imóvel de R$ 10 mi com recursos da Reag e financiado pelo BRB: https://iclnoticias.com.br/filho-de-ibaneis-comprou-imovel-de-r-10-mi/

3- Daniel Vorcaro foi 24 vezes ao Banco Central durante gestão Campos Neto (indicado de Bolsonaro): https://iclnoticias.com.br/vorcaro-24-vezes-bc-gestao-campos-neto/

4- Caso Master coloca Roberto Campos Neto no centro de um escândalo: https://iclnoticias.com.br/caso-master-coloca-roberto-campos-neto-no-centro-de-um-escandalo/

5- ‘Hoje, a máfia não vive sem o sistema financeiro’, diz ex-juíza federal sobre caso Master: https://iclnoticias.com.br/economia/mafia-sistema-financeiro-master/

6- Como Mendonça e delegado do Master espionaram funcionários públicos e intelectuais; confira na TV GGN: https://jornalggn.com.br/noticia/exclusivo-como-mendonca-e-delegado-do-master-espionaram-funcionarios-publicos-e-intelectuais-confira-na-tv-ggn/

7- Como a flexibilização de Campos Neto permitiu a infiltração do crime organizado: https://jornalggn.com.br/coluna-economica/como-a-flexibilizacao-de-campos-neto-permitiu-a-infiltracao-do-crime-organizado/

8- Nunes Marques trava julgamento que tem dois votos para cassar Castro: https://jornalggn.com.br/politica/nunes-marques-trava-julgamento-que-tem-dois-votos-para-cassar-castro/

9- André Mendonça e o delegado Marcantonio montaram a lista de funcionários públicos antifascistas: https://jornalggn.com.br/politica/andre-mendonca-e-o-delegado-marcantonio-montaram-a-lista-de-funcionarios-publicos-antifascistas/

 


[i] Disponível em: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/para-enxergar-ira-sem-os-filtros-da-midia/. Acesso em: 2 mar. 2026.

[ii] Prefácio da professora Mónica Zoppi no livro “As evidência do discurso neoliberal na mídia”, de Thierry Guilbert.