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O encontro marca o início de uma mobilização nacional que percorrerá 10 cidades brasileiras ao longo de 2026
Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP
Com informações do Jornal Brasil de Fato
Cresce a atenção ao tema sobre a democratização da comunicação no Brasil. Hoje, além do monopólio da mídia dos grandes grupos econômicos – como Rede Globo, Record, Band, Grupo Folha, Estadão etc. – temos o monopólio digital das big techs – controladas, também, por grandes grupos econômicos internacionais, principalmente dos Estados Unidos. A nossa informação, a dos trabalhadores, dos movimentos sociais e populares, de coletivos da diversidade, sempre é sufocada pela mídia hegemônica.
Em 28 de março último, em Porto Alegre (RS), o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) realizou importante encontro que4 debateu desinformação, concentração de poder nas plataformas digitais e o papel da mídia tradicional no avanço da extrema direita. Foi a abertura da Caravana do FNDC. O encontro foi a primeira parada de uma mobilização nacional que percorrerá 10 cidades brasileiras ao longo de 2026.
O auditório da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) ficou lotado. A caravana faz parte de uma estratégia de fortalecimento da sociedade civil organizada em torno do direito humano à comunicação no país.
A programação incluiu diversos temas, entre esses “O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo”. O professor Sérgio Amadeu abriu o debate analisando o funcionamento das redes digitais e o poder das big techs no atual ecossistema de comunicação. Segundo ele, embora a internet tenha ampliado as possibilidades de expressão, isso não significou, necessariamente, maior democratização. “Na internet, o difícil não é falar, é ser ouvido”, afirmou, destacando que a visibilidade é controlada dentro de uma economia de rede que tende ao monopólio.
Para Amadeu, plataformas como Meta e Google concentram a atenção global e exercem um poder sem precedentes ao controlar a distribuição de conteúdo por meio de algoritmos invisíveis. Esses sistemas definem o que será visto, por quem e com que frequência, a partir da coleta massiva de dados e da construção de perfis comportamentais. “Não há um alargamento da realidade, mas um encurtamento.”
O professor também alertou para a capacidade dessas plataformas de interferir diretamente no debate público e em processos eleitorais. Segundo ele, ao controlar a circulação e a visibilidade de conteúdo, as empresas podem reduzir o alcance de determinadas vozes, inclusive de candidaturas. “Vocês acham que eles não podem bloquear candidaturas ou reduzir a visualização das forças de esquerda?”, questionou. Para ilustrar ele citou episódios como o da Colômbia, onde perfis de candidatos de esquerda chegaram a ser retirados do ar durante o período eleitoral.
Amadeu também relacionou o poder das big techs ao campo geopolítico e militar, mencionando a Faixa de Gaza como exemplo do uso de dados e sistemas algorítmicos na definição de alvos em conflitos contemporâneos. “Sem regulação, há violação da liberdade de expressão”, afirmou, defendendo a necessidade de controle democrático sobre as plataformas e a criação de alternativas ao modelo atual.
Ao final, associou esse processo ao avanço do que chamou de “tecnofascismo” e citou o empresário Peter Thiel como exemplo de influência nesse campo, defendendo uma concepção de liberdade vinculada à igualdade.
Eleições, hegemonia e plataformas digitais
A antropóloga Letícia Cesarino avaliou que o Brasil enfrentará eleições decisivas em um cenário de avanço da comunicação hegemônica alinhada ao fascismo. Segundo ela, já há sinais de atuação da grande mídia na tentativa de normalizar candidaturas associadas ao bolsonarismo. “Parte da mídia tem se deslocado para sanitizar uma candidatura a Flávio Bolsonaro, inclusive com a retirada do sobrenome das manchetes”, afirmou.
Citando autores como Steven Levitsky e Marco Nobre, além de exemplos internacionais como Viktor Orbán, Narendra Modi e Donald Trump, Cesarino pontuou que é nos segundos mandatos que se aprofundam processos de erosão democrática. Ainda no campo político, apontou a convergência entre big techs e governos de extrema direita, impulsionada por disputas geopolíticas e pela expansão das empresas.
“Eles vão fazer o que for preciso, inclusive interferir em eleições, porque podem”, disse, mencionando práticas como shadowban. Também conhecido como shadow banning ou stealth banning, é uma prática em que uma plataforma de mídia social limita a visibilidade de um usuário ou de suas postagens sem notificar diretamente o usuário sobre a penalidade. Isso significa que o conteúdo do usuário é “escondido” dos outros usuários, especialmente aqueles que não o seguem, reduzindo drasticamente o alcance e o engajamento.
A professora destacou ainda a chamada “bolha da inteligência artificial”, associada ao crescimento de empresas como NVIDIA e OpenAI, que buscam se tornar indispensáveis à economia e à estratégia global dos Estados Unidos. Para ela, o avanço do fascismo altera a lógica tradicional da hegemonia, mobilizando afetos difusos, medo, ressentimento e insegurança, contra inimigos construídos, com as plataformas digitais funcionando como infraestrutura central desse processo. “Elas ocupam o espaço da nossa mente estendida.”
Ao abordar caminhos de enfrentamento, indicou três frentes: a disputa política nas próprias plataformas, combinada com organização offline, a regulação, apesar das limitações, e, sobretudo, a construção de alternativas no campo da soberania digital.
Para Cesarino, a criação de infraestruturas digitais alternativas é um caminho estratégico de longo prazo e mais viável do que parece. “As pessoas não conseguem imaginar um mundo fora das big techs, mas essas alternativas já existem”, concluiu.
Racismo, colonialidade e comunicação
Participando de forma virtual, o jornalista argentino Federico Pita propôs uma leitura histórica do fascismo relacionada ao racismo e à comunicação hegemônica. Segundo ele, o fascismo não deve ser entendido como uma anomalia ou um acidente da democracia, mas como parte de um processo mais amplo ligado à formação do mundo moderno. “O fascismo é uma forma intensificada de uma ordem que já existia no capitalismo moderno.” Na avaliação do jornalista essa análise precisa considerar a dimensão racial dessa construção histórica.
Para ele, esse processo remonta à expansão colonial europeia, que não produziu apenas dominação econômica, mas também uma narrativa que organizou o mundo em termos de hierarquia racial. No caso da Argentina, destacou que essa lógica se consolidou na formação do Estado nacional, com políticas que privilegiaram a imigração europeia, como previsto na Constituição de 1853. “A Argentina se narrou como branca”, enfatizou, classificando essa construção como uma tecnologia de exclusão e apagamento.
Segundo Pita, padrões de exclusão racial se consolidaram na Argentina e seguem ativos no presente, sob governos como o de Javier Milei. Ele criticou setores progressistas por não colocarem o racismo no centro das análises. “O racismo não é residual, é estrutural.”
O jornalista ressaltou ainda estratégias discursivas globais para desorganizar o campo antirracista, como a equiparação entre antissionismo e antissemitismo. Citou figuras como Donald Trump como parte de um ecossistema em que convivem nacionalismo branco, autoritarismo e discursos conspiratórios.
Ao concluir, Pita destacou que o fascismo também opera no plano das sensibilidades sociais e que a comunicação hegemônica é um de seus principais instrumentos. “Se não desarmarmos a arquitetura que sustenta esse dispositivo, a crítica ao fascismo corre o risco de ficar na superfície.”
Tecnologia, crise e disputa de futuro
Encerrando a primeira mesa, Diego Marques relacionou fascismo, tecnologia e comunicação, retomando reflexões de Walter Benjamin sobre o surgimento do fascismo e as revoluções técnicas associadas aos conflitos. A partir dessa leitura, argumentou que momentos de intensificação de conflitos estão historicamente associados a revoluções tecnológicas.
Ele citou como exemplo a Primeira Guerra Mundial, marcada pelo impacto de inovações nos transportes e na indústria, e destacou que, já nos anos 1930, Benjamin identificava uma nova transformação em curso, com o avanço da radiodifusão, do cinema e das primeiras tecnologias de processamento de dados. “Esse paralelo ajuda a compreender o presente. Onde há fumaça de guerra, há uma revolução da técnica em curso”, sintetizou.
Segundo Marques, hoje as dez maiores empresas globais de tecnologia representam cerca de 6% do PIB mundial, sendo que Alphabet e Meta concentram 70% desse total. Ele chamou atenção para o peso das infraestruturas tecnológicas nesse processo. “A gente olha muito para as plataformas, para o que está na nossa mão, mas esquece toda a cadeia produtiva e as redes que tornam isso possível.”
Marques comparou esse setor com a comunicação tradicional e destacou a diferença de escala. Enquanto as grandes empresas de tecnologia concentram uma parcela significativa da economia global, o conjunto da mídia convencional, incluindo radiodifusão, jornalismo e streaming, representa menos de 1% do PIB mundial. “Não estamos diante de uma simples transição de linguagem ou de modelo. Estamos diante de uma revolução material da técnica”, afirmou.
O professor também ligou as tecnologias à coleta de dados e à modulação comportamental em contextos estratégicos, inclusive militares. “O fascismo, nesse contexto, deixa de ser apenas uma opção ideológica e passa a ser uma necessidade para a reprodução do sistema”, afirmou, relacionando o fenômeno à crise climática e ao tecno-solucionismo, que exclui parcelas da população para garantir privilégios a outras.
Ele concluiu ressaltando que o enfrentamento passa pelo entendimento crítico das tecnologias e pela capacidade de construir usos sociais alternativos. “Se existe alguma brecha, ela está na nossa capacidade de imaginar e construir outros usos sociais para essas tecnologias. Se a gente não acelerar a marcha, a história pode acabar nos atropelando.”
Para ler a matéria completa sobre o encontro, clique aqui.
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