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2015: uma luta por direitos, justiça e soberania

26/11/2025

  

2015: uma luta por direitos, justiça e soberania

Segunda mesa do seminário, no dia 22 de novembro, discutiu a paralisação de 23 dias no Sistema Petrobrás

Rosângela Ribeiro Gil
Texto e fotos

Na parte da tarde de 22 de novembro, o seminário organizado pelo Sindipetro-LP discutiu a dinâmica e o legado da greve de 2015, que completou dez anos no dia 1º último. Compuseram o painel: os diretores do sindicato Fábio Mello, Adaedson Costa e Thiago Nicolini; o presidente da ABCP Anderson Mancuso e o economista Eric Gil Dantas, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps).

Em 2015, o Brasil foi palco de uma das mais marcantes greves do setor petrolífero de sua história recente. O movimento dos petroleiros destacou-se pela sua amplitude, organização e impacto tanto nas operações da Petrobrás quanto no debate nacional sobre direitos trabalhistas, políticas de gestão do petróleo e a soberania energética do país.

A paralisação ocorreu em meio a uma crise econômica e política profunda, e às vésperas do golpe institucional de depôs a presidenta Dilma Rousseff. Como lembras Eric Gil, foi uma década agitada, com as jornadas de 2013, a acirrada eleição presidencial de 2014 e o fim do ciclo das commodities.

Pelo lado da economia, discorreu Eric Gil, o setor de petróleo enfrentava desafios decorrentes da queda internacional dos preços do barril e ainda a depreciação cambial, fato que elevou a dívida da Petrobrás. Paralelo a isso, tem-se a variável política com o início da Operação Lava jato, em março de 2014, que vai atingir a companhia petrolífera brasileira e também grandes empreiteiras brasileiras, como a Odebrecht.

Em meio a esse cenário, a categoria petroleira enfrentava o silêncio da Petrobrás na campanha salarial, cuja data-base é setembro. Foram 45 dias sem qualquer abertura de negociação ou diálogo com os sindicatos, atitude, avaliada por Adaedson Costa, como erro estratégico da empresa. Em resposta, a categoria decidiu organizar paralisação nacional para defender conquistas trabalhistas, mas também para denunciar ameaças à empresa, patrimônio público essencial para o desenvolvimento do Brasil. “Considero a greve de 2015 como uma das mais vitoriosas da categoria. Conquistamos bom reajuste salarial, mantivemos direitos e não tivemos demissões”, ressalta.

Principais reivindicações de 2015

• Defesa dos direitos trabalhistas: Contra cortes de benefícios, mudanças em planos de cargos e salários, e ameaças à estabilidade dos empregos.

• Contra o desmonte e privatização da Petrobras: Os petroleiros protestavam contra a venda de ativos estratégicos da empresa e a terceirização de atividades-fim.

• Preservação da soberania nacional: O movimento defendia o controle estatal sobre o petróleo brasileiro, em especial o pré-sal, como motor de desenvolvimento econômico e social.

• Transparência e ética: Reivindicavam apuração dos crimes de corrupção sem penalizar os trabalhadores ou comprometer a própria existência da empresa.

Fábio Mello e Adaedson Costa lembram que também iniciavam mandato à frente do Sindipetro-LP. “Assumimos em junho e já enfrentamos e organizamos uma paralisação de 23 dias”, diz Mello. Para ele, a empresa não apostava na capacidade de reação da categoria às provocações e ataques empresariais, como cortar o pagamento das horas extras de 100% para 80%.

A Petrobrás não só viu que estava enganada, como não contava com um fator inesperado: a participação de uma nova geração de petroleiros/as no movimento. Quem fala sobre isso é o presidente da ABCP, Anderson Mancuso. “Defino a greve de 2015 como muito quente. Casa [sindicato] sempre cheia. Unidade. Foi uma paralisação que extrapolou os muros da empresa e conseguimos abrir um diálogo com a sociedade.”

Para Mancuso, a categoria travou a boa batalha da comunicação contra a mídia monopolizada que sempre “nos coloca como setor privilegiado”. Ele também aponta a importância, assim como ocorreu na greve de 1995, da solidariedade recebida de outros movimentos sociais e dos sindicatos, e até de estudantes.

Outro ponto destacado por Mancuso foi a participação das mulheres petroleiras nos piquetes, pegando o microfone para falar. Ele também vê a consolidação da FNP [Federação Nacional dos Petroleiros] como porta-voz nacional da categoria.

Mancuso, presidente da ABCP, na mesa 2 do seminário do Sindipetro-LP, ao microfone.

Douglas Alberto Braga, aposentado do TEBAR e diretor do Sindipetro-LP, fez questão de lembrar do dirigente petroleiro Luciano Zica, da base de Campinas. Uma referência de luta para a categoria e eleito deputado federal por três mandatos. Foi ele o autor de projeto de lei, em julho de 2003, para concessão de anistia a dirigentes ou representantes sindicais e trabalhadores punidos por participação em movimento reivindicatório.

Na justificativa, Zica disse: “Em 1995, o governo FHC, em seu grande empenho para efetuar a quebra do monopólio estatal do petróleo, posicionou-se de forma oportunista diante da greve dos petroleiros de 1995, atribuindo-lhe caráter político, o quê, ainda que não procedente, fortalecia sua estratégia para consagrar o fim do monopólio do petróleo. Para punir os grevistas e seus sindicatos, o governo impôs uma multa diária aos sindicatos e demitiu os trabalhadores que faziam o movimento.”

Para Douglas, a categoria precisa ter parlamentares de sua confiança para ajudar “a defender nossos direitos”.

Dinâmica e amplitude do movimento

A paralisação começou oficialmente em 1º de novembro de 2015 e rapidamente ganhou a adesão de trabalhadores em refinarias, terminais, plataformas marítimas e unidades administrativas em todo o país. Estima-se que mais de 50 mil empregados participaram ativamente do movimento, tornando-o um dos maiores da história do Sistema Petrobrás.

Apesar da pressão de setores econômicos e do governo, os grevistas mantiveram piquetes, assembleias e negociações firmes, mostrando unidade e disposição para o diálogo, mas sem abrir mão das suas principais bandeiras.

No Litoral Paulista, a truculência da empresa se fez sentir com a prisão dos diretores sindicais Fábio Mello e Fábio Farofa. A reação da categoria foi ainda mais firme, manteve o movimento e não abriu mão das reivindicações. Ao invés de acovardar, deu ainda mais força à paralisação.

Resultados e impactos

Após mais de duas semanas de paralisação, os petroleiros conquistaram importantes avanços, incluindo a garantia de manutenção de direitos, abertura de novas negociações sobre as condições de trabalho e suspensão de algumas medidas lesivas. Embora a greve não tenha barrado completamente o processo de desinvestimento e mudanças na empresa, ela fortaleceu a resistência dos trabalhadores e reforçou o debate sobre o papel estratégico da Petrobras para o Brasil.

Além disso, a mobilização de 2015 entrou para a história como exemplo de solidariedade, organização e luta em defesa do patrimônio nacional, inspirando movimentos sindicais em outros setores e reafirmando a importância do protagonismo dos trabalhadores nas decisões sobre os rumos do país.

A greve dos petroleiros de 2015 foi muito mais do que uma paralisação por melhores condições de trabalho. Foi um ato de resistência política, social e econômica, que buscou defender não só os direitos da categoria, mas também a soberania nacional e o futuro do Brasil. Seu legado permanece como inspiração para novas gerações de trabalhadores e para todos que acreditam na força da organização coletiva.

Mesa final do seminário: ACT em questão

A última mesa do seminário foi sobre o atual ACT-2026. Foram discutidos os diversos ataques que a diretoria da Petrobrás colocou em mesa de negociação e suas manobras, as lutas em andamento da categoria, os pontos críticos (como Petros, benefícios, plano de salário e cargos, novos projetos terceirizados) e as perspectivas para os próximos dias.

Cacau Pereira, coordenador do  Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), pontuou que muitas empresas vêm atrasando cada vez mais o processo de negociação no sentido de tentar dificultar as lutas e desmobilizar as categorias, e a Petrobrás não tem feito diferente.

Mesa final do seminário: Fábio Mello, Cacau Pereira, Adaedson Costa e Fábio Canté. Crédito: Silvio Muniz. 

As intervenções dos presentes ao seminário destacaram o velho método do "bode na sala", o eleitoralismo colocado na proposta pela empresa para evitar que no próximo ano, que será eleitoral, tenha processo de acordo coletivo, proposta apoiada pela outra Federação (FUP) que, nos últimos anos, vem sendo a primeira federação a rapidamente sucumbir na luta por uma acordo coletivo digno.

Confira
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