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A batalha da comunicação popular contra o discurso hegemônico que demoniza a classe trabalhadora, as favelas e as lutas
10/12/2025
Primeiro dia do curso do NPC reuniu diferentes vozes que abordaram adoecimento mental, formação da classe trabalhadora e chacinas policiais
Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP
Fotos de Mário Carmago - NPC
Cento e noventa pessoas representantes de sindicatos e movimentos sociais estiveram reunidas no 31º Curso Anual do NPC (Núcleo Piratininga de Comunicação). De 4 a 7 de dezembro último, no Rio de Janeiro, delegações de diversos estados brasileiros participaram de bons e importantes debates sobre “Comunicação e mobilização da classe trabalhadora”. Foram mais de 35 horas dedicadas a debater a comunicação contra-hegemônica – aquela em contraponto à informação capitalista veiculada pela mídia monopolista que domina o espaço público. Informação que nunca fala bem das nossas lutas.
Qual o nosso projeto de desenvolvimento econômico? Qual os nossos direitos para evitar o adoecimento, a mutilação e a morte nos locais de trabalho? O que é preservação ambiental e sustentabilidade para a classe trabalhadora? O que é justiça e segurança pública para as pessoas-que-vivem-do-trabalho, periféricas, trans, mulheres, povos originários?
Em tempos de fake news, inteligência artificial, redes digitais, aplicativos de mensagens somados aos tempos mais antigos dominados pela mídia empresarial monopolista – no setor impresso (jornais e revistas) e na radiodifusão (rádio e televisão) –, são os trabalhadores e as trabalhadoras, com vínculo empregatício (CLT) ou não (plataformizados, ambulantes, por conta própria etc.), as maiores vítimas.
A todo instante nossos corações e mentes são disputados, distraídos e manipulados pela comunicação dominante – aquela dos donos do capital. Não à toa, nos querem distantes dos grandes temas da vida em sociedade ou simplesmente que abdiquemos de fazer a boa luta coletiva por direitos e por um mundo melhor. Infelizmente, muitas pessoas são “abatidas” pela desinformação midiática tradicional e das redes digitais dominadas pela extrema-direita.
A seguir, fizemos uma memória breve das três mesas do dia 4 de dezembro.
Mesa 1 – 9h30
Comunicação sindical na prevenção ao adoecimento mental
É dentro desse universo que o NPC propôs debater a importância da comunicação sindical na prevenção ao adoecimento mental, iniciando o curso com a mesa “Comunicação sindical na prevenção do adoecimento mental”, na manhã do dia 4. Um dos destaques foi a saúde mental no magistério.
A educação é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento social, econômico e humano. No entanto, nas últimas décadas, o Brasil tem vivenciado cenário de profundas transformações influenciadas por políticas neoliberais, que afetam diretamente a estrutura, o financiamento e a qualidade do ensino público, principalmente, mas também do privado.
O neoliberalismo defende a mínima intervenção do Estado na economia, priorizando o livre mercado, a privatização de serviços públicos e a redução de gastos governamentais. No campo educacional, essas ideias se traduzem em cortes de investimento, incentivo à privatização, descentralização e responsabilização individual dos alunos e professores.
No Brasil, a influência neoliberal tornou-se mais evidente a partir dos anos 1990, com reformas que buscaram adaptar a educação às demandas do mercado. Entre as principais medidas adotadas, destacam-se: redução do financiamento público da educação; expansão do ensino privado e parcerias público-privadas; adoção de avaliações padronizadas e meritocracia; enfoque na formação técnica voltada ao mercado de trabalho em detrimento de uma formação cidadã ampla.
Como destacou Leila Moraes, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em educação Básica da Rede Oficial do Estado de Sergipe (Sintese), “o adoecimento, na nossa base, antes era de ordem ortopédica, na sua grande maioria; hoje é síndrome do pânico, de burnout (síndrome de esgotamento profissional) e de ansiedade constante. O modelo neoliberal na educação nos adoece ao impor índices de meta”.
Uma situação, observa Leila, que chega à família dos alunos. “A família, com quem em tese poderíamos contar, não nos dá mais apoio. Temos caso de mãe pulando o muro da escola para agredir a professora porque cumpriu a lei de não deixar o seu filho com celular em sala de aula”, relata.
A desvalorização da profissão, nas últimas décadas, trouxe uma sobrecarga ainda maior para o magistério. “Trabalhamos de manhã, de tarde e de noite em locais diferentes. E não me refiro apenas aos profissionais da rede pública, mas também da escola privada, mais de 90% delas não respeitam o piso profissional. A mídia sempre fala em violência nas escolas públicas ou da periferia, mas a escola privada também é adoecedora, com práticas de assédio moral, exigências de metas”, disse Afonso Celso Teixeira, primeiro secretário-geral do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio).
Super dica
Afonso Celso Teixeira é autor do livro “O Mantra”, que conta a história de um professor que vai adoecendo mentalmente devido a sua estafante jornada de trabalho. A publicação é da Editora NPC, saiba mais aqui.
Os professores Leila e Afonso ressaltaram a necessidade de políticas públicas de valorização da docência, no sentido de garantir condições de trabalho adequadas, com a valorização profissional, apoio psicológico e mecanismos para combater o assédio e a violência nas escolas.
Antes da mesa de debate, foi exibido o documentário “Quem cuida de mim?”, dirigido por Afonso Celso Teixeira e Cristiano Requião. A obra foca o grave problema do adoecimento mental de professores no Brasil, denunciando a sobrecarga de trabalho, a desvalorização e a falta de políticas públicas de apoio à categoria.
A ideologia da extrema-direita na educação
Outro tema discutido foi a ideologia da extrema-direita da "escola sem partido", cujo argumento principal seria o de uma suposta neutralidade no ensino. “A ‘escola sem partido’ pode ter sido considerada inconstitucional, mas ela existe e significa uma tragédia para a educação. Abriu-se uma porta para o conservadorismo e o autoritarismo dentro das salas de aula”, advertiu Leila Moraes.
O ato educativo é permeado por valores, crenças e contextos históricos. Ao exigir silêncio sobre temas sociais relevantes, a extrema-direita quer favorecer uma visão de mundo dominante, invisibilizando perspectivas minoritárias e críticas. Ao impor restrições ao ensino, a ideologia extremista atinge diretamente a liberdade de cátedra, princípio fundamental assegurado pela Constituição Federal. O medo de represálias pode levar à autocensura, empobrecendo o debate em sala de aula e dificultando o desenvolvimento do pensamento crítico nos estudantes. A "escola sem partido" impõe a homogeneização de ideias e supressão de discussões essenciais para a formação cidadã.
A liberdade de cátedra está garantida na Constituição Federal brasileira, principalmente no Art. 206, II, que estabelece como princípio do ensino a "liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber", visando o pluralismo de ideias e a autonomia didático-científica, sendo essencial para uma educação democrática e crítica, com o professor tendo direito de expor o conteúdo sem censura, respeitando a diversidade e os limites da lei e da ética.
A escola é um espaço privilegiado para o exercício do diálogo, da argumentação e do respeito às diferenças. Ao restringir o debate de temas políticos e sociais, o discurso ideológico da "escola sem partido" limita a possibilidade de os alunos compreenderem a complexidade da sociedade e se posicionarem de maneira crítica e autônoma diante dos desafios do mundo contemporâneo. Isso enfraquece a construção de uma cidadania ativa e consciente.
Em contextos democráticos, a pluralidade de ideias e o confronto respeitoso de pontos de vista são essenciais. O discurso da extrema-direita, ao buscar controlar e vigiar o que é debatido nas escolas, abre espaço para práticas autoritárias e para a intolerância. Além disso, pode marginalizar grupos que historicamente já enfrentam dificuldades de representação, como minorias étnicas, de gênero e de orientação sexual.
Para Leila Moraes, o ambiente de ensino tem se tornado um lugar de medo e insegurança, agravado pela ausência de proteção e reconhecimento profissional adequados. O enfrentamento de cenário, que combina políticas neoliberais e extrema-direita, exige a discussão de políticas e práticas que valorizem e cuidem do trabalhador da educação, oferecendo condições materiais, pedagógicas e de saúde adequadas, além de mecanismos de prevenção do adoecimento e de luta contra o assédio moral.
Ainda conforme a dirigente sindical de Sergipe, “a valorização deve ir além do discurso do trabalho por amor, deve-se pensar no trabalho com amor”. Além disso, o fortalecimento da resistência contra modelos conservadores e retrógrados que agravam a crise da educação é fundamental. Manter a luta por uma educação democrática, inclusiva e valorizadora do professor é essencial para garantir a saúde e o bem-estar dos profissionais e a qualidade do ensino, como apontaram Leila Moraes e Afonso Celso Teixeira.
Mesa 2 – 10h30
A classe trabalhadora brasileira
A segunda mesa reuniu os professores Marcelo Badaró e Flávia Braga Vieira, a dirigente sindical Gerlane Pimenta, do Sindicato dos Bancários do Maranhão (SEEB-MA), e a coordenadora nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Direito (MTSD), Luciana Mendonça. O painel possibilitou a riqueza e diversidade do debate necessário e atual sobre quem é a classe trabalhadora brasileira em tempos de hiper exploração neoliberal do trabalho e do meio ambiente combinado ao discurso do empreendedorismo e da sustentabilidade.
Da esq. à dir.: Luciana, Gerlane, Euro Filho (coordenador da mesa), Marcelo e Flávia.
Luciana Mendonça, do MTSD, vaticinou logo no início da sua fala: “Os trabalhadores sem CLT, hoje, são a maioria no país.” Ambulante há 25 anos nas ruas de Recife, como ela mesma disse, atualmente exerce o seu trabalho nas ruas da capital paulista e, na sua rotina diária, enfrenta o “corre do rapa, apanha dos fiscais. A maioria é pobre, preta e sem formação educacional”, descreveu.
Numa avaliação correta sobre os tempos atuais, Luciana fala nas profundas transformações com a “revolução digital”, que “mudou a forma como trabalhamos, nos relacionamos e lutamos por nossos direitos. As fábricas, os escritórios e até as ruas ganharam novas dimensões – agora também existem nas telas, nas redes e nas plataformas digitais. E é nesse novo cenário que a classe trabalhadora precisa se fortalecer, se comunicar e se mobilizar”, disse.
Em exposição que prendeu a atenção do público, Luciana falou que, durante décadas, “a força do trabalhador esteve nas praças, nas assembleias, nas greves e nas conversas olho no olho. Hoje, essa força também pulsa nos grupos de mensagens, nas transmissões ao vivo, nas campanhas online e nas redes sociais. A comunicação digital se tornou uma ferramenta poderosa de resistência e união. Mas, para que ela funcione, é preciso saber usá-la com consciência, estratégia e propósito”, ensinou a dirigente do MTSD.
Sem desconsiderar que a era digital, ao mesmo tempo em que traz oportunidades, também apresenta grandes desafios. Ela sentenciou: “As mesmas redes que nos conectam podem nos dividir. As mesmas plataformas que amplificam nossas vozes podem espalhar desinformação. Por isso, o primeiro passo é compreender que comunicar é mais do que postar – é construir pontes, criar diálogo, gerar empatia e inspirar ação.”
Em tempos em que nos querem divididos, fracionados e longe das lutas coletivas, Luciana lembrou que a classe trabalhadora sempre foi movida pela solidariedade, e que agora precisa ser digital também. “Precisamos ocupar os espaços virtuais com a mesma garra com que ocupamos as ruas. Precisamos transformar cada mensagem, cada vídeo, cada publicação em um ato de mobilização. Porque a luta por direitos, dignidade e justiça não tem fronteiras – ela acontece onde o povo está, e o povo está conectado”, falou.
A era digital, como bem se posicionou Luciana, pode servir para o bem e para o mal da classe trabalhadora, porque a tecnologia, por si só, não é a solução. “O que faz a diferença é o conteúdo humano que colocamos nela. É a verdade das nossas histórias, a força das nossas causas, a coragem de quem não se cala diante da injustiça. A comunicação digital é uma ferramenta, mas o coração da mobilização continua sendo o mesmo: a união”, ensinou.
Para ela, cada trabalhador e trabalhadora pode ser um/a comunicador/a. “Cada celular pode ser uma trincheira. Cada rede pode ser um espaço de resistência. Quando usamos a tecnologia para nos organizar, informar e inspirar, transformamos o algoritmo em aliado da classe trabalhadora. Porque, no fim das contas, a tecnologia muda o mundo, mas quem faz a história é o povo. E o povo unido, consciente e conectado é invencível. Quem vive do trabalho informal também merece direitos”, destacou aos participantes do 31º Curso Anual do NPC.
Na sequência, Gerlane Pimenta, do SEESB-MA, também começou sua participação de forma contundente, ao dizer: “Quem separa a gente por categoria é o capital.” E ironizou: “Ser banqueiro, no Brasil, é maravilhoso. Nos últimos cinco anos, os principais bancos, entre esses a Caixa, o Banco do Brasil, Itaú, Bradesco e Santander, tiveram 125 bilhões de reais de lucro, equivalente ao PIB da Jamaica. Se a pandemia [da Covid-19] foi uma tragédia para a classe trabalhadora, para os banqueiros foi um presente.”
Na contramão da fortuna dos bancos está a precarização das condições de trabalho dos bancários e do atendimento à população que depende de transações bancárias, como recebimento de aposentadoria ou pensão e de pagamentos. “Em 2024, o Santander fechou mais de 550 agências em todo o país, Itaú fechou mais de 200, Banco do Brasil, 113, e Caixa, mais de 100. Foram mais de oito mil demissões”, disse, acrescentando que mais de 20 milhões de pessoas sofrem com esse cenário. “São os excluídos por não terem letramento digital. A grande maioria está no Sudeste e no Nordeste. Ao mesmo tempo, há uma mercantilização dessa precarização”, informou.
A dificuldade de acesso e a precarização são problemas frequentes. Muitas pessoas precisam pagar entre 8% e 10% de seus benefícios só para se deslocar até a cidade e sacar seu dinheiro, além da taxa de 120 reais cobrada por alguns serviços. “Quem depende do sistema financeiro, seja aposentado ou trabalhador, enfrenta poucas alternativas para fazer operações essenciais. No Nordeste, é comum encontrar pessoas dormindo nas portas das agências, esperando atendimento”, observou.
O SEEB-MA, informou Gerlane, em parceria com a senadora Eliziane Gama, lançou projeto de lei para barrar o fechamento de agências bancárias. “O projeto exige que, antes de fechar uma unidade, o banco apresente alternativas de atendimento, principalmente em cidades com até 20 mil habitantes, para não prejudicar os usuários e o trabalho da categoria”, descreve.
O Projeto de Lei 5456/2025 visa criar regras claras e obrigatórias para o fechamento de agências bancárias no Brasil, impedindo fechamentos arbitrários e garantindo o acesso da população aos serviços financeiros, equilibrando inovação tecnológica com função social dos bancos.
Gerlane lembrou a história de luta da categoria em todo o país. Hoje, contudo, “enfrentamos dificuldades enormes, como a reforma trabalhista [de 2017], que derrubou dispositivos importantes para a organização e proteção dos trabalhadores. Antes, existia a negociação coletiva que garantia cláusulas importantes nos acordos, mas a reforma eliminou essa proteção, deixando muitos trabalhadores vulneráveis. Mesmo com greves importantes, como a dos funcionários da Caixa e parte do Banco do Brasil, a pressão jurídica e o enfraquecimento dos direitos continuam”.
A precarização do trabalho no sistema bancário adoece a categoria. Ela lembrou tragédia que marcou a categoria: “Em 29 de dezembro de 2016, uma companheira do Banco do Brasil foi assassinada por um colega na cidade de Imperatriz, Maranhão. O acusado responde ao processo em liberdade desde 2020. Esse episódio reforça a importância da luta por direitos, respeito e segurança no ambiente de trabalho.”
Já o professor Marcelo Badaró trouxe a importância de conhecer o passado da formação da classe trabalhadora brasileira. “Sou historiador e quero trazer um pouco de história sobre a formação da nossa classe trabalhadora. No Brasil da segunda metade do século XIX, fomos a última nação nas Américas a abolir a escravidão. Essa classe trabalhadora nascente compartilhou uma experiência comum de organização e luta coletiva. Se falamos de luta coletiva, devemos lembrar que o centro da luta social naqueles primeiros momentos foi o combate pela liberdade e o fim da escravidão”, disse.
O Dragão do Mar foi Francisco José do Nascimento (1839-1914), líder jangadeiro, prático-mor e abolicionista cearense que se tornou símbolo da resistência contra a escravidão no Brasil ao organizar greves e impedir o transporte de escravizados no porto de Fortaleza em 1881, sendo crucial para a abolição no Ceará. Ele era conhecido como "Chico da Matilde" e o apelido "Dragão do Mar" veio da imprensa carioca por sua bravura.
O Ceará, lembrou o historiador, em 25 de março de 1884, foi a primeira província a abolir a escravidão, com o protagonismo do “Dragão do Mar”, Francisco José do Nascimento. “Isso foi fruto da forte luta do movimento abolicionista local, que reuniu pessoas de diferentes origens sociais”, destacou e disse que a abolição foi celebrada com festas organizadas pela Sociedade das Senhoras Libertadoras, no Rio de Janeiro e em Recife. Essa sociedade era composta majoritariamente por mulheres brancas de setores intermediários da cidade. “Apesar de não terem plenos direitos civis e políticos, [elas] tiveram papel importante na luta abolicionista, inclusive demonstrando sensibilidade às desigualdades de gênero presentes na época”, disse, e completou: “Uma outra história importante [se deu] em 23 de março de 1879, no Rio de Janeiro, o trabalhador Vicente de Souza fez uma palestra chamada ‘O império e a escravidão. O parlamento e a pena de morte’. Ele criticou uma nova lei que propunha a pena de morte para escravizados que matassem seus senhores ou capatazes, denunciando a ideia de pessoas serem tratadas como propriedade.”
O historiador também mostrou como os/as trabalhadores/as também já realizavam a luta solidária. “Trabalhadores ferroviários, marítimos, portuários, dos telégrafos e de outras categorias apoiavam as fugas das pessoas escravizadas em direção ao Ceará. As mulheres também estavam na luta contra a opressão do sistema escravocrata.”
Esses fatos históricos, disse Marcelo Badaró, mostram como a luta coletiva abolicionista foi “incubadora” de outras lutas históricas da classe trabalhadora brasileira. Conhecer a história e compreender que a luta nunca foi fácil mostram que “os movimentos coletivos unificados contra a exploração e opressão típicas do capitalismo da época são possíveis e mais do que necessários”.
A relação meio ambiente e classe trabalhadora foi abordada pela socióloga e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Flávia Braga Vieira. O foco central foram os desastres ambientais causados pelo processo produtivo capitalista, especialmente no contexto da mineração, que comprometem a saúde e a vida do/a trabalhador/a e causam impactos ambientais e sociais.
A classe trabalhadora “clássica”, aquela do operário de macacão, ao longo do século XX, enfrentou riscos relacionados ao processo de produção, seja por acidentes, contaminação ou por condições ambientais adversas dentro das fábricas. Entre as décadas de 1970 e 1980, se deu mais atenção àquela fumacinha que saía das fábricas, entendendo-a como resultados de processos químicos que tinham efeito no meio ambiente, além dos efeitos nos corpos dos/as trabalhadores/as.
Conforme disse Flávia, hoje há a compreensão do vínculo direto entre a poluição industrial e os diversos tipos de doenças que afetam os/as trabalhadores/as. Nos últimos anos, prossegue ela, a tragédia de Brumadinho (MG) despertou uma nova consciência sobre a nocividade dos processos de produção para além dos muros fabris. “São processos que atingem também quem está fora da cadeia produtiva mais expressiva do capital e não são empregados diretos do capital. A luta contra a destruição ambiental envolve, hoje, pescadores, seringueiros, quebradeiras de babaçu, os povos originários, ribeirinhos, as diversas comunidades”, ressaltou Flávia.
As emergências climáticas não afetam as pessoas da mesma forma, como “as ondas de calor e grandes inundações, por exemplo”. No espaço urbano, o impacto social se manifesta na falta de saneamento, moradia precária e riscos constantes de morte. No contexto rural, populações que vivem às margens dos rios amazônicos também sofrem consequências graves com inundações, falta de acesso a alimentos e água potável. Essas populações são atingidas diretamente pela forma como o desenvolvimento e controle das águas são feitos, exemplificado pelas barragens que precisam abrir comportas para proteger infraestruturas, causando alagamentos.
O acesso a tecnologias, como o ar-condicionado ou mesmo a capacidade de comprar mantimentos, influencia a estar ou não protegido dos efeitos das mudanças climáticas. A desigualdade social e econômica é um fator determinante para a vulnerabilidade frente a esse cenário. Em termos econômicos, o capitalismo passa por crises, e a lógica da valorização do capital está presente até mesmo nos processos chamados de "transição energética", como o aumento do uso de carros e motos elétricas. A transição energética não significa que as fontes antigas, como o petróleo e o carvão, deixem de ser usadas – pelo contrário, seu uso continua crescendo para sustentar a produção e o consumo. Assim, inovações tecnológicas na área energética não substituem, mas ampliam o consumo e a produção, mantendo o sistema capitalista e seus impactos.
Portanto, é fundamental denunciar a ideia enganosa de que a transição energética atual significa uma solução definitiva para a crise climática. A continua exploração dos trabalhadores e da natureza está no centro do projeto capitalista. A mudança climática agrava as desigualdades sociais, atingindo especialmente as classes trabalhadoras, sobretudo aquelas que vivem mais próximas da natureza, dependem dela, e são as primeiras a sofrer os impactos socioambientais.
Flávia Braga destacou a importância de combater o capitalismo para garantir a proteção ambiental e social. “Cito frase de Marx, no Livro III de ‘O Capital’, de que todo progresso capitalista é um progresso na arte, não de roubar o trabalhador, e sim de roubar o solo. A única solução para impedir ou frear a destruição ambiental é o fim do capitalismo”.
Mesa 3 – 14h30
Entre a polícia, a política, a justiça e o crime está o povo trabalhador
Da esq. à dir.: Guilherme, Luísa Souto (coordenadora da mesa), Dalva e Orlando.
“A gente vive a ditadura na favela.” A frase é de Maria Dalva Correia da Silva, mãe de Thiago, morto com cinco tiros de fuzil aos 16 anos de idade, no Morro do Borel, junto com mais três jovens. Os policiais registraram as mortes como "autos de resistência", mas perícias da Polícia Federal e do Instituto de Criminalística provaram execuções à queima-roupa, com tiros pelas costas e sem troca de tiros. “Meu luto virou luta”, disse Dalva ao participar da mesa que discutiu a violência e a segurança pública junto com o advogado Guilherme Pimentel Braga e o delegado aposentado Orlando Zaccone.
A Chacina do Borel ocorreu em 16 de abril de 2003, na favela do Borel, zona norte do Rio de Janeiro, quando policiais militares do 6º BPM executaram quatro jovens em uma emboscada, além do filho da dona Dalva, foram executados Carlos Alberto da Silva Ferreira (21 anos), Carlos Magno de Oliveira Nascimento (18 anos) e Everson Gonçalves Silote (26 anos). A ação ficou conhecida como "Operação Vingança" e se tornou emblemática pela impunidade e a luta por justiça de familiares e ONGs, com o caso arquivado em 2019 após absolvição dos PMs.
Em depoimento emocionado, Dalva falou como foram seus dias logo após o assassinato de seu filho. O velório e o sepultamento de Thiago, lembra Dalva, foram acompanhados por policiais militares, num flagrante gesto de constrangimento e ameaça. “Quando saía na rua era chamada de vagabunda, mãe de bandido pelos policiais”, disse. Dalva transformou o luto, como ela mesma disse no início da palestra, em ativismo por justiça, integrando a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência e o movimento "Posso me identificar?", em referência às vítimas impedidas de se apresentar. “Minha luta é por memória e justiça”, defende.
Em todos esses anos de luta, dona Dalva apurou seu olhar para compreender a sociedade em que vivemos e que a política da elite “não quer o povo preto vivo”. Apesar de mais de 20 anos de impunidade, com absolvições em júris populares e denúncias internacionais, Dalva, aos 66 anos e moradora do Borel, segue lutando. Ela destacou que, no Brasil, há mais pessoas encarceradas e vítimas de violência do que em países que vivem em guerra. “O povo preto, favelado e periférico só tem deveres, e nenhum direito”, criticou.
O delegado aposentado Orlando Zaccone afirmou que, às vezes, os crimes são praticados dentro de instituições e agentes do Estado. Ele descreveu o que chama de “construção de sujeitos ‘matáveis’”, aqueles que os agentes de Estado e a mídia definem como bandidos ou traficantes. “Esse discurso é aplaudido pela sociedade”, lamentou. Para ele, o cenário de violência praticada por quem deveria zelar pela vida das pessoas – indistintamente se moram na Zona Sul ou numa comunidade do Rio de Janeiro – é de fascismo, “quando se elege os inimigos que devem ser exterminados”. É o que se vê nas ações policiais dentro de comunidades, “você não vê uma chacina no Leblon”, ironizou.
Segundo Zaccone, dentro da lógica construída pela extrema-direita e pela mídia corporativa, a partir do momento em que alguém é identificado como “traficante de droga”, ele perde o direito à vida. Ele descreveu as dificuldades nas esferas do Direito para apuração das mortes, “infelizmente, a grande maioria dos inquéritos é arquivada pelo Ministério Público”. Em sua pesquisa de mestrado, ele analisou 300 inquéritos, entre 2003 e 2004, “apenas um deles constou como ato de resistência que resultou em ferimentos de policial, o resto não”, disse, indignado. “O que percebemos é que essas ações não são vistas como crimes, mas como ações legais, e necessárias.”
O advogado Guilherme Pimentel Braga – ex-ouvidor-geral da Defensoria Pública do Rio de Janeiro entre 2020 e 2023, que acompanha de perto a realidade das comunidades afetadas pela violência policial e coordena a Rede de Atenção a pessoas Afetadas pela Violência de Estado (RAAVE) – trouxe outro ponto importante para o debate. Segundo ele, a mídia corporativa, como a Rede Globo de Televisão, também funciona como legitimadora do discurso de quem é “matável” na nossa sociedade.
É o que se viu, mais uma vez, na chacina policial [segundo reportagem da Revista Piauí, o jornalismo da TV Globo está proibido de utilizar a expressão “chacina” sobre ações policiais] nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, no dia 28 de outubro de 2025. A veiculação de informações sobre o que aconteceu teve papel fundamental para positivar a medida apoiada pelo governador Claudio Castro. Conforme descreveu Guilherme, muitos repórteres estiveram presentes, inclusive em locais como o Instituto Médico Legal (IML), entrevistando mães de vítimas, lideranças de movimentos de luta, entre outros. No entanto, apesar dessa presença intensa, algumas vozes importantes foram silenciadas. “O que foi para o ar não era o que as mães falaram”, criticou, e acrescentou: “Qualquer ação ou declaração fora do acerto de legitimar a ação, estava descartada. Alguns jornalistas, constrangidos, ainda ligaram para se desculpar.”
Guilherme destacou o esforço coordenado de comunicadores populares e de coordenadores da rede de atenção às pessoas afetadas para formar uma força-tarefa e acompanhar os acontecimentos durante o período e tentar fazer uma comunicação contra-hegemônica.
Ele falou, ainda, de aspectos operacionais da cobertura jornalística, como a suspensão do sobrevoo de helicópteros durante operações para não atrapalhar a polícia. Isso demonstra a complexidade na relação entre mídia e segurança pública em detrimento da circulação da verdade no espaço público.
Outro dado importante e complexo foi saber que o Ministério Público foi o autor da deflagração da operação, “ficamos impedidos de recorrer ao MP para exercer o controle externo das atividades policiais, porque descobrimos que foi a instituição – que existe para fiscalizar – que autorizou a operação. Isso cria uma anomalia grave na fiscalização e no controle da atuação policial”, observou o advogado. Para agravar a situação, ainda conforme o advogado, 77% da tropa, no dia 28 de outubro, não estava usando câmera corporal, apesar de determinação legal para o uso.
Outro padrão comum na abordagem da violência policial nas favelas: investiga-se o morto, e não a morte em si. A naturalização desse padrão gera justificativas automáticas baseadas no histórico criminal da vítima, como “ele tinha ficha”, desviando o foco do que realmente importa: as circunstâncias da morte e a responsabilidade institucional. Guilherme questiona essa lógica, apontando a desumanização presente nesse procedimento, quando famílias são desrespeitadas ao terem a ficha criminal da vítima colocada no centro da narrativa. Ele ressalta que não se faz o mesmo em casos de pessoas brancas ou de classe média. Por exemplo, quando um médico foi morto na Lagoa Rodrigo de Freitas, ninguém levantou sua ficha criminal. Então, por que isso acontece sistematicamente com pessoas negras das favelas?
O discurso que tenta justificar essas mortes como “mal necessário” deve ser desconstruído, pois tenta normalizar um processo de extermínio. Para Guilherme, quem atua na comunicação tem um papel crucial de “sanear” o debate público, que está contaminado por desinformações e falácias. Um deles é a ideia equivocada de que os territórios periféricos são dominados por quadrilhas ou facções criminosas e que o Estado precisa “retomar o controle”.
A comunicação popular, fora do espectro da mídia monopolista dos grandes grupos econômicos, deve contribuir para desconstruir esse discurso que dificulta o debate público saudável e a busca por soluções efetivas.
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