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A força da comunicação nas crises atuais

12/12/2025

  

Professores, jornalistas, dirigentes sindicais e especialistas discutem as oportunidades e os desafios das novas tecnologias digitais

Rosângela Ribeiro Gil
Redação ABCP

No segundo dia do 31º Curso Anual do NPC, 5 de dezembro, a mesa inicial teve como tema “Comunicar para resistir: a força da comunicação nas crises atuais” e reuniu os jornalistas Heloísa Villela, do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Altamiro Borges, do Barão de Itararé, e Antonio Martins, do Outras Palavras, e Arlete Rogoginski, diretora do Sindicato dos Servidores do Poder do Judiciário do Estado do Paraná (Sindijus-PR).

Arlete, autora do livro “A resistência dos servidores públicos brasileiros diante do neoliberalismo”, fez exposição sobre a implantação do receituário neoliberal, no Brasil, a partir da década de 1990, e como isso impactou os servidores públicos, colocados como “inimigos” do país, como o então candidato Fernando Collor fez na campanha eleitoral à Presidência da República, em 1989. “Fomos colocados como marajás”, lembra Arlete. 

O livro é um estudo de caso da campanha de comunicação digital “Movimento a Serviço do Brasil” contra a PEC 32/2020. O livro apresenta detalhes de como a campanha nacional atingiu servidores de todo o país e unificou uma luta nacional.

A categoria, como explanou a diretora do Sindijus-PR, é uma das principais vítimas, no início dos tempos neoliberais, junto com a privatização de estatais. Mais recentemente, com a reforma trabalhista de 2017, o ataque brutal foi contra as lutas coletivas e os sindicatos. Ela lembra que, nos dois Governos FHC (1995-1998 e 1999-2002), foram privatizadas 125 estatais, com milhares de demissões em todo o país.

Mesmo com todos os ataques, observa Arlete, os servidores públicos resistiram, como os da Justiça do Paraná. “Em plena pandemia [da Covid-19, entre os anos 2020 e 2021], tivemos de ir às ruas defender a categoria, mas também os serviços públicos”, lembrou a diretora, contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32, apresentada em 2020, no governo Bolsonaro, e definida por eles como “reforma administrativa”, mas se trata, como alerta, da precarização do trabalho dos servidores públicos e, por consequência, dos serviços prestados à população brasileira. A PEC representa retrocesso aos direitos e o sucateamento de serviços ofertados à população.

Mesmo com toda a dificuldade por causa da pandemia, as organizações sindicais conseguiram mobilizar as categorias contra a PEC 32, que agora vem remodelada na PEC 38. “Em plena pandemia, impedimos o avanço desta proposta neoliberal, realizando a campanha “Movimento a serviço da população”, mesmo movimento está sendo construído agora para derrubar a proposta de destruição do serviço público no país.

A autoria da PEC 38/2025 é de um grupo de 15 deputados, com destaque para o Dep. Zé Trovão (PL/SC), que protocolou a proposta em 24 de outubro de 2025. Outros deputados que assinam a proposição são Julio Lopes (PP/RJ) e Marcel van Hattem (NOVO/RS), entre outros. 

A jornalista Heloísa Villela, dona de vasta trajetória profissional, hoje repórter do ICL Notícias, reforçou a necessidade de os sindicatos estarem organizados para campanhas unificadas, como a que se viu na ação contra o que ficou conhecido como a PEC da Bandidagem, no primeiro semestre deste ano.

A PEC da Blindagem (Proposta de Emenda à Constituição) foi um projeto que visava reforçar a imunidade de deputados e senadores, exigindo autorização do Congresso para que pudessem ser processados criminalmente ou presos, mesmo em flagrante de crimes inafiançáveis, além de ampliar o foro privilegiado, mas foi arquivada no Senado em setembro de 2025 após intensa repercussão e debates sobre retrocesso democrático e privilégios

Para ela, que fez jornalismo ainda na época do Telex, as novas tecnologias podem ser importantes aliadas na informação contra-hegemônica ao baratearem custos e multiplicar as vozes. Ela falou de sua experiência recente ao fazer a cobertura jornalística, na Cisjordânia, do genocídio de palestinos empreendido pelo governo israelense de Benjamin Netanyahu. “Fui sozinha e apenas com um telefone [celular]”, disse, acrescentando outras experiências, como na cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul, no primeiro semestre de 2024, e do Congresso Nacional, em Brasília. E reafirmou: “Sou eu e o meu telefone.”

“A questão da palestina é o marco da nossa desumanidade no século XXI. Só o ICL Notícias cobriu o conflito da Palestina no local”, Heloísa Villela.

Heloísa evidencia que o artefato tecnológico atual pode ajudar a comunicação sindical ser mais eficaz, rápida e a produzir conteúdo importante para informar as categorias, mesmo aquelas com recursos restritos. Todavia, ela também observa os problemas, contradições e desafios dos espaços digitais nas mãos das big techs. A jornalista indica a necessidade de regulamentar, por lei, a questão dos algoritmos que projetam os discursos da extrema-direita. “As mídias digitais estão fazendo a cabeça das pessoas no mundo inteiro”, alertou.

Diferentemente da mídia dos grandes grupos econômicos, a mídia posicionada fora do campo da extrema-direita, como o ICL Notícias, disse Heloísa, não esconde “que temos compromisso com a pauta progressista”. Ela receita: “Precisamos aliar a boa informação – bem checada e apurada – com a exposição de levar, de forma clara, sem escamotear nada do público.”

Altamiro Borges, do Barão de Itararé, mais conhecido como Miro, endossou que “nunca a comunicação foi tão importante como hoje”, lembrando o tempo em que conheceu Vito Giannotti (morto em 2015), criador, junto com a jornalista Claudia Santiago, do NPC. “Conheci o Vito em porta de fábrica distribuindo jornal, falando com os trabalhadores.” E completou: “Não se avança na luta sem fazer a boa batalha da comunicação.”

Citando Engels, Miro falou nos três terrenos (ou formas) principais e interconectados em que a luta operária se desenvolve: “Ele [Engels] falou sobre isso no final do século XIX. Temos a luta econômica, que Engels chamou de rudimentar, a luta política que envolve leis e governos, e a luta das ideias, ou seja, a disputa ideológica.”

A citação a qual Miro se refere está no Prefácio à Edição Inglesa, de 1892, de “A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra”. Nele, Engels fala da luta econômica, ou seja, a resistência diária dos trabalhadores contra a exploração capitalista no local de trabalho. Isso inclui greves, formação de sindicatos e a luta por melhores salários, redução da jornada de trabalho. A luta política envolve a organização da classe operária em partido político próprio, distinto dos partidos burgueses, para lutar por reformas legislativas e, em última instância, pela tomada do poder do Estado. E, por fim, a luta de ideias (ou teórica) que envolve a compreensão do funcionamento da sociedade capitalista, da luta de classes e do caminho para o socialismo, o que permite aos trabalhadores superar ideologias burguesas e a "falsa consciência". 

Miro também citou Gramsci e a disputa pela hegemonia, como questão central da luta contra a exploração e o domínio ideológico do capitalismo.

Para Gramsci, a luta pela hegemonia é a disputa pelo consenso e pela liderança cultural e ideológica de uma classe sobre as outras. Liderança intelectual e moral exercida por uma classe, obtida não só pela coerção (Estado/sociedade política), mas principalmente pelo consentimento (sociedade civil), transformando interesses particulares em universais. Nessa disputa, são aparelhos dessa dominação, entre outros, a escola, a igreja e a mídia. 

Na contextualização de Miro, a classe trabalhadora precisa estar atenta e conscientizada sobre o domínio exercido pela classe burguesa, ou os donos dos meios de produção. No mundo contemporâneo, observou o jornalista do Centro Barão de Itararé, o movimento sindical e os coletivos sociais e populares precisam, ao mesmo tempo em que devem utilizar as mídias digitais, não perder de vista a grande influência ainda das mídias tradicionais (jornais, revistas, rádio e televisão) concentradas nas mãos de grupos econômicos monopolistas.

Para mostrar a importância da mídia, Miro mostrou a mudança do ranking da Forbes dos setores mais poderosos, se antes eram as indústrias, depois passando pelo sistema financeiro, “hoje é o segmento da tecnologia da informação que lidera a lista. As sete big techs alcançaram coletivamente um valor de mercado de aproximadamente 18,5 trilhões de dólares, o que equivale oito vezes ao PIB do Brasil”, afirmou.

Também conhecidas como as “Sete magníficas”, as sete big techs são: Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet (controladora do Google), Amazon, Meta Plataforms e Tesla.

Para Miro, essa batalha, neste momento de crise do capitalismo e das instituições (judiciário, parlamento e governos), está sendo perdida pelo nosso campo. “O campo progressista não consegue atender às demandas da sociedade, porque enfrentamos desafios enormes, desde a sobrevivência dos nossos empregos, à ditadura dos algoritmos e a não transparência das big techs.”

Se tivemos uma vitória épica contra o fascismo nas eleições presidenciais, em 2022, o governo não compreendeu a importância da disputa das ideias, “não faz a educação do oprimido. Qual a política para montar redes, dar ênfase à mídia alternativa, periférica etc.?”, pergunta.

O jornalista também destacou a pouca unidade e integração da esquerda e do movimento sindical. Ele mencionou dados da pesquisa nacional “O Trabalho e o Brasil”, realizada pelo Instituto Vox Populi em parceria com a Fundação Perseu Abramo e com apoio técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e do Fórum das Centrais Sindicais. A pesquisa mostra um dos retratos mais completos sobre a relação da classe trabalhadora com o movimento sindical. A pesquisa, conforme Miro, mostra um cenário importante e positivo para a atuação dos sindicatos.

Principais dados da pesquisa

?68% afirmam que os sindicatos são essenciais para garantir direitos e melhorar as condições de trabalho;

?67,8% apontam contribuição direta para a melhoria da qualidade de vida;

?67,1% valorizam a mediação entre trabalhadores e empresas;

?64,3% veem os sindicatos como defensores da classe trabalhadora;

?52,4% afirmam não conhecer as ações concretas das entidades que os representam;

?37,5% falam da necessidade dos sindicatos melhorarem a comunicação.

O editor do site Outras Palavras, Antonio Martins, observou a necessidade de procurar alternativas às angústias apresentadas no debate. “Como disse o Miro, o tema é vastíssimo.” Ele falou da contradição vivida com as novas tecnologias: ao mesmo tempo em que somos capazes de contar o drama da Palestina apenas com um celular e nos transformamos em comunicadores,  eliminando a “ditadura dos grandes meios de comunicação, cuja lógica é poucos emissores para grandes públicos, temos o algoritmo que decide aquilo que vai ser escutado ou visto pela grande maioria das pessoas. É essa angústia que a gente vive, de muitas possibilidades e muitos bloqueios ao mesmo tempo”, observou.

Antonio frisou o rol de instrumentos tecnológicos disponíveis hoje – máquinas, programas, inteligência artificial – que poderia permitir à sociedade ter consciência de si própria e de questões sociais, ambientais e econômicas. Todavia, prosseguiu, hoje estamos cada vez mais distantes e impotentes de resolver problemas essenciais.  “Dentro dessas angústias todas, apresento uma outra, o Brasil em 2026. As contradições desse processo político eleitoral que a gente vai viver. O Outras Palavras está no esforço de ir além do próprio voto, ajudar a reconstruir um horizonte político”, disse.

Além do cenário nacional, Antonio falou da situação internacional com a tensão criada por Trump, presidente dos EUA, com a guerra comercial, num primeiro momento, com o mundo inteiro, e, agora, voltando sua artilharia contra a América Latina. “Isso está visível, por exemplo, nas pressões contra a Venezuela, mas está visível no que eles fizeram contra a Argentina, oferecendo uma tábua de salvação para o Milei conseguir vencer as eleições e adotar agora um ajuste mais draconiano, mais drástico do que havia adotado. Está presente, por exemplo, nas eleições do Chile, em Honduras, e isso vai se manifestar nas eleições aqui no Brasil”, advertiu.

Apesar do quadro de dificuldades, Antonio observa sinais de vitalidade e de luta na sociedade brasileira. “Entendemos importante a imprensa popular, a imprensa sindical, inclusive, tentar elencar um conjunto de ideias que vão, pouco a pouco, constituir aquilo que a gente chama de projeto nacional, a partir de elementos concretos. O primeiro deles é a ideia de que existem recursos para fazer as transformações sociais necessárias. Precisamos explicar que o Estado não funciona como uma família ou como uma empresa, e, por isso, só pode gastar aquilo que arrecada. Ele não gasta só aquilo que arrecada. Por exemplo, esse um trilhão de reais transferido aos rentistas na forma de juros, significa quatro vezes o orçamento do SUS [Sistema Único de Saúde]. Quatro vezes todas as equipes de Saúde da Família, todas as enfermeiras, todos os médicos presentes em cinco mil e setecentos municípios. Todos os exames, todas as cirurgias, todas as vacinas, todos os transplantes, tudo isso você multiplica por quatro, é o que o Estado brasileiro transfere para os rentistas. Esse dinheiro não vem dos nossos impostos. Esse dinheiro é inventado, é criado pelo Estado, porque o Estado tem esse poder de criar os recursos, ele é o emissor de dinheiro, e esses recursos, que são criados para favorecer o rentismo, têm que ser criados para outros projetos que a sociedade brasileira tem que debater. Projetos como, por exemplo, reconstruir a educação da rede pública”, defendeu.

Ele completou: “Precisamos de um Estado que volte a investir na saúde pública, ou seja, no SUS; na reconstrução da infraestrutura que permita estabelecer redes de transporte digno nas cidades, que permitam fazer a reurbanização das periferias, que permitam estabelecer, com a presença do Estado, condições de enfrentar a insegurança, que permitam gerar um programa de trabalho digno garantido pelo Estado, que é uma das formas, inclusive, de enfrentar a contrarreforma trabalhista [de 2017]. Nós não podemos nos unificar sem ter uma ideia de país. É possível fazer a luta pela vitória do Lula e de um Congresso Nacional mais sensível aos problemas do povo brasileiro.”

Mesa 2 – 11h30
Saúde é ausência de medo

Na segunda mesa da manhã do dia 5, discutiu-se a comunicação sindical e popular dentro da perspectiva da saúde do trabalhador com o diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), Alexandre Oliveira, a professora Luciene Lacerda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Rodrigo Murtinho, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT-Fiocruz).

Rodrigo coloca o acesso à internet, como definiu a Organização das Nações Unidas, como direito fundamental das pessoas e necessário também para se ter acesso a recursos de saúde, “por isso, é importante ter acesso universal à banda larga”.

Desde 2011, a ONU reconhece o acesso à internet como um direito humano fundamental, essencial para a liberdade de expressão e o pleno exercício da cidadania, vinculando-o à democratização da informação e ao desenvolvimento, com alertas sobre a necessidade de combater a exclusão digital e garantir um acesso seguro e inclusivo para todos, como enfatizam órgãos como a UNESCO e relatórios de especialistas. 

Ele criticou a redução de verbas públicas destinadas à saúde, principalmente por causa de emendas parlamentares que retiram recursos do orçamento público, e assinalou a importância de se “batalhar” por esse recursos fora do espectro fisiologista, clientelista e eleitoreiro das emendas parlamentares. “Governo não consegue fazer políticas públicas, como na área da saúde, porque o orçamento foi esvaziado pelas emendas parlamentares”, criticou.

Para ele, enfrentar o medo é enfrentar a questão ambiental e de saúde não como uma revolta da natureza contra a espécie humana, mas compreender que são efeitos de processos produtivos nocivos à saúde e ao ambiente. Rodrigo citou um cenário atual como a proliferação, principalmente em países da periferia do capitalismo, de data centers que têm grande impacto ambiental com a utilização de água, e sem gerar empregos.

Data centers são instalações físicas que abrigam servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de rede para processar, armazenar e transmitir grandes volumes de dados, sendo a espinha dorsal da infraestrutura digital que sustenta a internet, serviços em nuvem, governos e empresas, garantindo que serviços como streaming, redes sociais e transações bancárias funcionem 24/7, com sistemas robustos de energia, refrigeração e segurança. 

Alexandre, dirigente do Sindipetro-NF, discorreu sobre a experiência da categoria petroleira em relação à defesa da saúde e de condições de trabalho dignas. Ele contou a ação sindical durante a pandemia da Covid-19, entre os anos 2020 e 2021, quando travou luta com a direção da Petrobrás – então sob o domínio do governo Bolsonaro – até para ter o direito de distribuir máscaras para os trabalhadores.

Ele afirmou que as plataformas da petrolífera tiveram muitos casos, “tivemos caso de trabalhadores dormindo ao relento, porque a plataforma estava toda contaminada”. Conforme Alexandre, os dados da empresa não são transparentes sobre o que realmente aconteceu durante a Covid-19 na Petrobrás, mas os sindicatos conseguiram identificar que a categoria petroleira ficou mais vulnerável do que a média da população brasileira. Até dezembro de 2021, foram 8.462 casos na empresa, de acordo com o Ministério das Minas e Energia, o que representa 21% da força de trabalho da companhia. Na população geral, o número de casos representou 14%.

Alexandre relacionou os principais problemas enfrentados, atualmente, nas plataformas (offshore) da companhia petroleira: desconforto nas acomodações, desvio de função e sobrecarga de trabalho, piora na alimentação e nas condições de higiene, salário atrasado. A situação, expôs o dirigente do Sindipetro-NF, é de ataque às conquista da categoria, como querer alterar o regime atual de trabalho nas plataformas que, hoje, é 14x21 – ou seja, o trabalhador permanece embarcado na plataforma por 14 dias consecutivos, seguindo uma jornada de 12 horas diárias, e depois usufrui de 21 dias de folga em terra. “A Petrobrás virou uma ´fábrica de doenças´, tentando desestabilizar o tempo todo o petroleiro. Tivemos até caso de morte de trabalhador quando estava em treinamento. A luta atual é colocar em oposição a monetização da luta versus a vida do trabalhador”, afirmou.

A professora Luciene, da UFRJ, expôs como a pandemia da Covid-19 expôs de forma gritante a fragilidade da saúde e da vida na sociedade brasileira. E lembrou: “A primeira morte por Covid-19, no país, foi de uma empregada doméstica negra contaminada pelos seus patrões que tinham retornado de uma viagem à Europa.”

As orientações de saúde pública para evitar o contágio do vírus era não sair de casa, lavar bem as mãos, usar álcool em gel etc. “As empregadas domésticas podiam ficar em casa? Quem tem água potável e saneamento no país? Quem podia comprar álcool em gel e máscara descartável, cujo preço subiu absurdamente? Quem tinha acesso à internet para continuar estudando, já que as escolas foram fechadas?”, questionou.

Outra questão importante detectada foi o “sumiço” de dados da pesquisa sobre as mortes pela doença que poderiam evidenciar quem estava sendo mais afetado pela pandemia – e que mostraria as desigualdades sociais nacionais. De forma proposital, denuncia Luciene, “se dificultou o acesso aos dados sobre a pandemia e como ela atingiu as pessoas negras, periféricas e mais vulneráveis”.

Para ela, essa é mais uma faceta do sistema que nos quer impingir medo e divisão. Ao contrário, disse a professora da UFRJ, temos de “andar de braços dados” e conhecer (ou revisitar) a nossa história, como a da luta contra a leucopenia (benzenismo) da década de 1980, contra o assédio moral. “O silêncio não vai nos proteger.”

A docente inclui outros fatores para pensar e defender a saúde, como o racismo e a discriminação de gênero, a homofobia, a transfobia, o machismo. Tudo isso faz mal à saúde. Ela ensinou: “Precisamos saber como somos, o que somos e ter olhar plural para a categoria.”

Mesa 3 – 14h30
Redes sociais e a marca do sindicato

Na primeira mesa da tarde, os participantes do 31º Curso Anual do NPC tiveram uma verdadeira aula sobre redes sociais e definição de marca do sindicato com Leo Silva, fundador e diretor de criação da Altvista, e Artur Araújo, do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa).

Leo Silva apresentou o passo a passo da construção de uma marca, logo dizendo que a arte de um card, um vídeo, uma foto, a bandeira do sindicato não podem se confundir com “a marca” do sindicato, eles podem contribuir para gerar e construir a marca. Nesse sentido, o especialista explicou o que é o branding, levando em conta o processo estratégico (o que fazer, como fazer, por que e para quem) que é de forma contínua, para isso, é fundamental conhecer o público (ou a categoria) a quem se destina o marketing.

São três os elementos, segundo ele, que permitem construir a marca: pela narrativa, visualmente e pelo gesto/comportamento. Tudo feito com unidade de propósitos e objetivos. Uma questão destacada por Leo Silva é convergir o que a marca “diz” ou passa de mensagem e o que o trabalhador vai ter de fato junto ao sindicato. Isso é o “ponto de contato”. “Não adianta a construção de uma marca positiva e ser atendido de forma ruim no sindicato ou o dirigente estabelecer um contato com a categoria pouco simpática. Essa situação vai ter mais efeito do que tudo o que foi construído para a marca”, ressaltou.

Ou seja, a construção da marca não está dissociada de outros elementos, como trabalho de base, atendimento presencial no sindicato, comportamento dos dirigentes sindicais etc. “O branding sindical depende da coerência”, avisou.

Por isso, o professor do Cesupa, Artur Araújo, afirmou que não existe “fórmula mágica” para se ter sucesso numa campanha de marketing ou para se estar numa rede social. Ele falou da complexidade das redes digitais, dominadas pelos algoritmos sob o comanda das big techs. São várias as motivações que levam as pessoas a terem perfis nas redes sociais. Infelizmente, disse, vemos a motivação pelo ódio. “Temos um exemplo clássico de grupos de pessoas que não têm aparentemente nada em comum, com motivações diferentes, interesses diferentes, vidas diferentes, mas que se conectaram apenas por um ódio, muitas vezes um ódio fabricado.”

No universo sindical e popular, podem ser construídas várias conexões e relações – “já falamos aqui de saúde, de segurança pública, de machismo, de condições de trabalho, de direitos, ou seja, existem várias microrredes aqui dentro. Estamos aqui discutindo e compartilhando experiências. Só que na internet não é assim tão simples. Nas redes sociais, virtuais, temos o algoritmo que vai privilegiar certos tipos de conteúdo e de pauta. Infelizmente, não podemos ignorar isso”.

A compreensão dessa realidade, ensina Artur, é fundamental para se elaborar toda a estratégia de se estar nas redes digitais. “Como é que a gente pode começar a pensar nisso? O primeiro passo é o equilíbrio. O que o sindicato precisa comunicar? O que as pessoas querem consumir e que o algoritmo privilegia?”, questiona. Mas isso, afirmou, não significa abandonar as pautas sindicais ou entrar em métricas de vaidade pessoal. Toda ação tem uma reação. Deve-se ter em mente que o conteúdo a ser comunicado ou publicado deve ter um propósito dentro dos princípios do sindicato e da categoria representada. Por isso, disse ele, “entregue para o seu público somente conteúdo que ele precisa”.

Mesa 4 – 15h30
Inteligência artificial e big techs

A mesa que discutiu inteligência artificial e big techs reuniu o professor Sérgio Amadeu, da Universidade Federal do ABC (UFABC), o dirigente do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ) Felipe Araújo e o especialista Arthur William, do NPC.

Sérgio Amadeu iniciou sua palestra fazendo uma provocação ao público: “Já vou alertá-los, inteligência artificial é um nome fictício, porque o temos, na verdade, são sistemas automatizados baseados em dados, em grande quantidade de dados, e em algoritmos estatísticos que extraem padrões destes dados, e que geram modelos. Modelos são programas. Não estamos falando de nada inteligente, mas do uso de estatística, de probabilidade, aplicado a uma base de dados, uma base treinada.”

Ele provocou ainda mais:  “Treinamento nada mais é que a extração de padrões, realização de classificações, a partir de algoritmos que vão fazer esse trabalho estatístico e probabilístico da base de dados. Então corte a internet do seu celular e do seu computador e faça uma pergunta para ele. Não vai acontecer nada, sabe por quê? Porque a inteligência artificial não é um software instalado na tua máquina. É uma megamáquina. Quando você faz uma pergunta, você tem que estar conectado à internet. Segundo, o que você pergunta vai lá longe, mover milhares de máquinas que tão bem distantes.”

Sérgio Amadeu “desmontou” o que é a IA, na contramão do discurso dominante que tenta colocar a ferramenta como algo para além ou acima das pessoas. “A linha de montagem do paradigma principal do que é chamado de IA é o aprendizado de máquina [machine learning], principalmente o aprendizado profundo [deep learning]”, disse.

O aprendizado de máquina tem três componentes fundamentais, prosseguiu ele. O primeiro são os dados – sem eles não existe IA. Na sequência, temos o algoritmo, “que chamamos de aprendizes, mas que não aprendem nada, na verdade, eles são estatísticas, algoritmos probabilísticos que classificam esses dados e extraem padrões”.

Depois dessa etapa, descreve o professor da UFABC, “entra um monte de engenheiro e cientista de dados parametrizando isso, para que eu o faça falar como um humano. Aí eu crio o modelo. Esse modelo é o que você vai perguntar para ele. O que que o Machado de Assis achava do Dom Pedro? Aí ele responde para você, porque ele extraiu o padrão. É assim que faz o ChatGPT, que extrai informações e dados de bilhões de textos, sem pedir autorização para ninguém”.

O professor da UFABC trouxe outra preocupação com relação ao cenário digital, que é o impacto ao meio ambiente:

“A IA é uma mega máquina. Esse poder computacional para fazer a IA funcionar é desastroso e ambientalmente dramático. Insustentável. Quantas pessoas estão fazendo perguntas para a OpenAI agora, o ChatGPT? Segundo eles, que eu nunca acredito no que eles falam, um milhão de pessoas, em média, tão acessando por minuto a OpenAI. Quantos data centers eles precisam para fazer o modelo rodar? Um? Quinhentos computadores? Mil computadores? Quantas máquinas vocês acham que precisa? Entendeu o que é uma mega máquina? Pra fazer inferência, inferência é perguntas ao modelo. No ano 2000, tinham 600 data centers de hiperescala, 39% deles estavam nos Estados Unidos, 10% na China. Em quatro anos, subiu para mil e duzentos. Dobrou, em quatro anos. Só os data centers de hiperescalas. Cinquenta e quatro por cento ficaram no solo americano e vão continuar lá. Porque os Estados Unidos não vão perder o controle dos dados. E os nossos sindicatos colaboram com eles, entregam dados para Microsoft, Amazon Web Services (AWS), Oracle.”

Felipe Araújo, diretor de Negociação Coletiva do Senge-RJ, fez questão de destacar que veio falar de comunicação a partir da visão do dirigente sindical e das dificuldades enfrentadas para mobilizar os trabalhadores hoje em dia. “Mas tudo o que conseguimos viabilizar é por meio da comunicação”, ressaltou. Uma comunicação, segundo ele, que não está voltada apenas às questões vividas pela categoria dentro da empresa, mas também para além dos muros da Petrobrás. Nesse sentido, o sindicato se preocupa com a questão da soberania de dados, que, sabemos, leva, hoje, ao controle cultural e do fluxo de informação e à manipulação da sociedade.

Apesar da complexidade da disputa, Felipe exorta disputar esse espaço com as outras forças, como a da extrema-direita. “A gente precisa lutar, mas com olhar estratégico. A gente tem o maior maquinário de comunicação do Brasil. Qual é a nossa capacidade de relacionar isso em rede, de forma coordenada?  Qual é a única arma dos trabalhadores? É a nossa capacidade organizativa”, observou.

Hoje, definiu Felipe, os sindicalistas já fazem gerenciamento de comunidades, “somos um dos primeiros, talvez, só fazíamos isso no formato analógico, agora tem o formato digital. A diferença é que agora tem muito mais mensagem disputando a atenção da categoria. Agora é muito mais mensagem. Então a gente precisa focar, na minha opinião, a gente precisa desse transporte, na nossa expertise de gerir comunidades”.

Para Felipe, os sindicatos deveriam utilizar softwares livres, sendo campos de batalha, de soberania tecnológica. “Se a gente não organizar essa frente de batalha, a gente não vai conseguir vencer isso nunca. A gente vai ficar ali no grupo de WhatsApp, reclamando. Então, softwares livres e gestão de comunidades são peças centrais nesse campo de luta. Os sindicatos são importante ferramenta para estourar as bolhas criadas pelos algoritmos.”

Arthur William, do NPC, falou sobre sua atuação profissional no campo da comunicação digital, destacando o lançamento de um curso sobre o tema e abordando a evolução das profissões diante das novas tecnologias. Profissões como linotipista, datilógrafo e digitador, anteriormente consideradas essenciais, foram gradualmente substituídas ou acumuladas em outras funções devido à automação e à digitalização, fenômeno que também ocorre atualmente com a inteligência artificial, especialmente com o surgimento do engenheiro de prompt e a necessidade de adaptação dos profissionais às novas ferramentas.

A discussão se aprofunda nos impactos da inteligência artificial nas relações de trabalho e na sociedade. Segundo Arthur, a IA não é uma tecnologia restrita à área de TI, mas perpassa todos os setores, provocando automação de funções, precarização do trabalho plataformizado e desafios para sindicatos e movimentos sociais. Exemplos internacionais, como a proibição do Uber na Itália e a mobilização dos roteiristas em Hollywood, evidenciam como a organização coletiva pode influenciar a regulação dessas novas dinâmicas.

O especialista do NPC abordou o papel da academia e do investimento público no desenvolvimento de tecnologia nacional, citando iniciativas brasileiras como o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada S.A. (CEITEC) e a importância da pesquisa científica para avançar em soberania tecnológica frente às grandes corporações globais.

Por fim, Arthur William ressaltou a necessidade de articulação entre centros de pesquisa, adoção de modelos de código aberto e investimento estatal estratégico para fortalecer o ecossistema de inteligência artificial no Brasil. Falou, ainda, dos desafios relacionados à formação profissional, transição digital dos sindicatos e impactos sociais, como a dependência de tecnologias e a proliferação de avatares sintéticos nas redes digitais. Ele defendeu a regulação das plataformas digitais, educação crítica sobre o uso de novas tecnologias e o papel dos movimentos sociais na proteção dos direitos e no direcionamento do desenvolvimento tecnológico nacional.

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O segundo dia do curso do NPC foi finalizado com homenagem a Chico Mendes e ao Grupo Tortura Nunca Mais-RJ com a presença de Cecília Coimbra, Pedro Cláudio Cunca Brando Bocayuva e Rosa Roldan.